Relendo O Retrato de Dorian Gray

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Arte: Aubrey Beardsley

Apesar de todo esforço estruturalista e de Fernando Pessoa, autores continuam sendo confundidos com as suas obras e personagens. Parece ser algo inevitável encontrar traços espalhados pelas páginas e completarmos o desenho com a mesma volúpia com a qual procuramos pelo nosso próprio rosto ali refletido. Se gostarmos da obra, é claro.

Oscar Wilde foi condenado a ser identificado com a sua única novela, gênero que não trouxe fama em vida: O Retrato de Dorian Gray. Não devemos inocentar Wilde por essa confusão, pois o próprio autor se identificou com os três personagens principais da obra (Basil, Dorian e Henry), que formariam uma estranha quimera daquilo que ele achava ser, do que gostaria de ser e o que pensavam que ele era.

Wilde não foi um tolo, pelo contrário, e o sucesso da sua imagem e a popularidade de seus aforismos prova que foi muito talentoso em construir um personagem que representasse o seu tempo. Esse personagem é o Oscar Wilde das fotos em preto em branco, das roupas elegantes, dos casacos de pele e bengala. Aquele Oscar Wilde que sobreviveu aos anos de cárcere. Construir essa quimera em uma fábula revela um toque de vaidade e, se acreditarmos em Wilde, a vaidade é algo superficial.

Mas por que devemos acreditar em Wilde?

Wilde foi um cínico, que diferente dos cínicos gregos, mordia e sorria ao mesmo tempo em que se fazia uma elegante reverência em busca de aplauso. Quando revisou Dorian Gray para publicação e incluiu um prefácio com alguns aforismos, tentando defender a obra das acusações de imoralidade, acabou selando a visão que fariam dele posteriormente. O julgamento de 1895 mostrou que Wilde não era um bom advogado e tomemos isto como uma forma de elogio. O prefácio de Dorian Gray não apresenta argumentos fortes de defesa e funciona mais como uma apresentação da obra para que o leitor conheça seus temas. Várias daquelas ideias são ecoadas, especialmente nas frases de Lorde Henry Wotton.

Mas Wilde não é Watton. Wotton é alguém que não consegue – apesar da sua cultura e até mesmo inteligência – se comprometer com coisa alguma. Sequer é um verdadeiro hedonista, pois não se entrega verdadeiramente ao prazer, mantendo uma impessoalidade disfarçada de crítica. Não é capaz de se comprometer com a arte tampouco. Wilde foi um defensor do ideal da “arte pela arte”, mas esse ideal não é a defesa da atitude distante e desinteressada de Lorde Henry. “Arte pela arte” é antes de tudo um compromisso do artista consigo mesmo e uma defesa contra a apropriação de sua arte por outros. Tudo que Lorde Henry faz é desejar a beleza dos outros. Ele acha Basil maçante e literalmente rouba Dorian dele usando um livro que Wilde “roubara” de Huysmans.

Mas como são deles os mais interessantes aforismos, os mais extravagantes, suas ideias foram confundidas com os ideais de Wilde. A ironia tem esses resultados nebulosos, especialmente considerando que Dorian Gray é uma obra irregular. Diferente do maior mestre deste jogo, Voltaire, que no Candido, cria a tensão necessária, ao multiplicar os personagens contraditórios, impedindo que qualquer um deles se tornasse dono da verdade, Wilde não confronta Lorde Henry com ninguém. Basil é insípido, um operário que vez ou outra se inspira, e Dorian um eterno adolescente mimado e irresponsável. A ironia em Dorian Gray é um pouco manca e a sua crítica, muitas vezes, se disfarça de afirmação.

De certa forma, Wilde usou Dorian Gray e Lorde Watton para criar um Troll muito antes das redes sociais e dos memes. Seus aforismos funcionam perfeitamente para esse tipo de texto: curtos, diretos, inteligentes e, muitos deles, vazios.

Wilde trabalhou com temas semelhantes em outras obras, como por exemplo, na releitura da parábola da origem do Buda, que é um dos seus contos de fadas, O príncipe feliz. Nele, toda a beleza superficial, vai sumindo na medida em quem o príncipe abre mão do ouro, rubis e joias para ajudar as pessoas da cidade. Da mesma forma que Dorian, o Príncipe termina feio e sem atrativos. Da mesma forma que Dorian, ele causa a morte do artista que o ajudou a construir aquela obra (a andorinha). Da mesma forma de Lorde Henry, os moradores da cidade não admiram a arte do Príncipe e sim a beleza superficial que possuía. O artista é descartado, a obra destruída, mas sua essência, o coração que não derrete, permanece. Não é de se espantar, Oscar Wilde tem todas as características de uma fábula moral derivada das 1001 Noites, enxertada com maçantes personagens da época vitoriana. O tipo de conto que Stevenson e Kipling fizeram com mais felicidade.

Basil e Dorian são destruídos no final da novela, mas o retrato permanece, não importa se Lorde Henry pensasse que Basil pintasse mal o suficiente para ser um bom pintor inglês. Não devemos pensar em Wilde quando pensamos que a beleza por si basta. Ele não foi esse monumento ao vazio como foi um dos seus personagens. A arte basta, mas isso é verdade para a filosofia e para a ciência. Estamos em uma companhia das mais respeitáveis.


#oscarwilde #doriangray #literatura #horror

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