Todos os livros de Rubem Alves

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Uma das passagens mais bonitas da primeira parte do Dom Quixote (por que a segunda parte é toda hors-concours) é a queima da biblioteca pessoal de Alonso Quijano. Um autor menos enamorado pela literatura talvez fosse mais sucinto e fizesse logo uma pilha incandescente com os livros, as estantes e as cadeiras do Quixote. Não Cervantes, que vai citando cada uma das obras, seus autores e ainda coloca na boca dos personagens (o padre cura e o barbeiro) opiniões sobre cada uma delas. É um belo exercício de crítica, pois algumas destas opiniões, por mais curtas que sejam, são bem sensatas e ajudam a construir uma base para a sátira de Cervantes.

Ah, mas o Padre Cura e o Barbeiro enfrentam uma dificuldade. Ao nomear os autores e os livros eles criam uma relação com cada obra. É algo pessoal, indica a leitura e, quando surge o Amadis de Gaula ou o Tirante o Branco, eles são obrigados a capitular. Aqueles objetos deixavam de ser um mero conjunto de páginas encadernadas, e passam a ser, como diz o próprio cura: um tesouro de contentamento. Para o pátio com os livros cuja leitura não lhes provocava nem mesmo a loucura.

O governo de Rondônia foi menos justo que o padre cura  e o barbeiro. Fizeram uma lista curiosa, de obras irretocáveis, mas que não faz muito sentido, pelo ao menos não logo de cara. Esses livros deveriam ser recolhidos das escolas. Temos lá Machado de Assis e Mário de Andrade. Não sei o motivo. Será que agora que o Machado virou negro ele deixou de ser bom? E o Mário queria ensinar arte nas escolas e ficaram com medo do professor aparecer com alguma nudez? Eu entendo a confusão com a coleção Mar de Histórias, causada talvez pelo sobrenome Buarque de Holanda e que ninguém espalhe sobre o dicionário. Mas será que alguém contou que Poe é um americano e nesses dias bajular americanos é a norma? Kafka está lá para a realidade nos lembrar desta situação kafkaniana em que nos metemos? Nelson Rodrigues? O cara deu nome ao complexo de vira-latas, é claro que tem de ser silenciado.

Mas, talvez o que mais chame atenção nesta lista, é que no final da tabela, vem uma recomendação de recolher todos os livros de Rubem Alves. Certo, vários livros são nominalmente citados na lista, mas isso chama mais atenção. O autor desta ordem não se prestou a conhecer Rubem Alves. Não, ele não quer essa intimidade. Ele quer a garantia de não ter esquecido nenhum livro, ou seja, não importa se leu ou não para saber o conteúdo da obra (ou a qualidade gráfica, já que foram dando desculpa de que eram livros xerocados por isso deveriam ser recolhidos).

Quando você fala todos os livros, você acaba com qualquer experiência, com qualquer identidade ou potencial da obra de um autor. É tudo um mesmo objeto. Inflamável, mesmo se o fogo não for literal. É quase algo pessoal. Como defender todos os livros? Nós precisamos conhecer melhor, dizer um “oi”, passar tempos juntos e nos despedir. Todos os livros? Não é coisa de leitor, mas de carregador durante uma mudança. É coisa de quem foge de livros, tão cheios de palavras, como o Drácula dos filmes da Hammer foge da luz do sol.

Se você acha normal essa tentativa de censura , vou logo avisando: antes sempre andava com um livro na bolsa para ler, hoje, é para autodefesa.

João Camilo de Oliveira Torres


#censura #rubemalves #rondônia #domquixote

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