Parasita e História de um Casamento: rindo da nossa desgraça alheia

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Gargalhadas. Esse parece ser a recompensa almejada por quem assisti ou lê algo cômico e que é diametralmente oposto à recompensa da tragédia: lágrimas. Mas, isso, tantos anos depois de vários Aristófanes e Sófocles não é lá muito preciso. Tragédias e Comédias possuem alguns objetivos opostos, que não é rir ou chorar, mas desafiar ou conservar a ordem. Claro, como a comédia tinha como objetivo puxar o tapete de quem estava em cima, o tombo provocava risos e para a plateia entender que existe uma ordem no universo que não pode ser alterada nem pelos mais heroicos, pode provocar piedade e lágrimas, mas objetivo não é a piada ou o ato heroico, e sim esse movimento possível que nos faz sair do inferno ao céu.

Os anos passaram, uma multidão de gêneros e subgêneros foi criada e como toda divisão, Comédia e Tragédia muitas vezes se mostraram formalmente como uma só. Shakespeare, por exemplo, usa elementos da comédia para transformar Romeu e Julieta em uma tragédia possível. Quem nunca entendeu (ou não queria entender por que tomou birra quando a Fernanda Montenegro perdeu o Oscar para a Gwyneth Paltrow) o Shakespeare Apaixonado, pode rir agora (rir por último é melhor, diz o ditado). Por outro lado, Chaplin usava de elementos dramáticos para tornar sua comédia melhor: Carlitos era pobre, vagabundo, um miserável daqueles que viviam sob o tapete que precisava ser puxado. Pois ri melhor quem ri de baixo para cima.

É interessante notar que dois dos filmes mais destacados pelo conteúdo trágico deste ano sejam na verdade uma comédia. Bem, menos estranho é o Parasita de Joon-ho Bong. É de provocar gargalhada. É feito para mostrar a luta de classes? Claro, mas tudo do ponto de vista dos personagens pertencentes a uma classe mais pobre. São eles que fazem de bobo os ricos e é com eles que rimos. Também a dor deles que sentimos quando o filme aproveita nossa distração e dá uma facada no meio da nossa costela, mas não é uma questão de sentir piedade pelos personagens. É uma sátira amarga e deliciosa por isso mesmo.

O outro é a História de um casamento de Noah Baumbach. Comparar com Kramer vs. Kramer, o dramalhão estrelado pela dupla Hoffman e Streep nos anos 70 é justo. O tema é parecido: o divórcio de um casal e a briga pela custódia do filho. Kramer vs.Kramer é um dramalhão que apela para a emoção com mesma cara de pau que os filmes da série Sexta-Feira 13 apelava para as tripas e sangue e Porkys para as piadas chulas. É evidente que a atuação da dupla oscarizada e a direção de Robert Benton são melhores do que as das duas franquias, mas no final das contas é bem tênue a linha que os separa. É a partir daí que a comparação entre Kramer vs. Kramer e Historia de um casamento é ilustrativa.

História de um casamento mostra um absurdo o processo de separação, o que provavelmente indica que o processo de união foi igualmente absurdo. Tem todo ar de farsa: o casal é amistoso, não têm atritos que não poderiam ser resolvidos com tempo e o único motivo compreensivo para o divórcio é a busca de Nicole (Scarlett Johansson) pelo progresso profissional independente da carreira de Charlie (Adam Driver). Os advogados, ao contrário, criam uma guerra psicológica entre os dois para que consigam… nem eles sabem. Nada nos impende de sensibilizar com os personagens (de fato, como nenhum dos dois é uma pessoa repulsiva é bem fácil nos sensibilizarmos) e odiar os advogados. Não, odeie os advogados, eles que estão no tapete desta vez. Puxe com força.

Mas nada impede você de rir dos dois, na verdade é isso que o filme nos convida a fazer. Mesmo nas cenas mais intensas, que em Kramer vs. Kramer seriam prolongadas para provocar a mais completa piedade, Baumbach nos afasta da dupla. Nada de close-ups longos: mal temos tempo de ver as lágrimas escorrerem (de fato, Nicole não chora em cena!). O contraste entre o gigante Adam Driver e a miudinha Scarlett Johansson faz o resto. Ele cai de joelhos, ela bate o pé, furiosa. No final do filme a inversão, ela se ajoelha e ele carrega o filho. Não é sequer um final emocional. É apenas lacônico como quem dá de ombros diante da completa futilidade que foi o processo de divórcio. Quem tem o poder se ajoelha e quem não tem? Não pisa em cima. É sobre poder, mas sobre empatia de quem tem o poder.

Ao contrário de Parasita, a facada de  História de um casamento é menos afiada e o filme pode ficar um pouco a desejar ao puxar o tapete, mas continua sendo uma comédia, mesmo que o roteiro faça até mesmo o uso do coro na forma dos atores da peça que Charlies está montando, ancorada na atuação de todo elenco, e de forma nenhuma procurando apelar como Kramer vs.Kramer para o sentimentalismo, apesar de pedir certa sensibilidade da plateia.

Mas sem lágrimas, elas seriam falsas enquanto as risadas serão genuínas.

João Camilo de Oliveira Torres – Quem quiser me ouvir falando de séries e filmes baseados em HQs, basta clicar aqui e acompanhar o X-POILERS!


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