O livro como forma de resistência

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Antes de tudo, aviso que esse é um manifesto estético, portanto, moral e político, verdadeiro e de estilo elaborado.

Se perguntarmos o que é um livro, receberemos tantas respostas variadas que quase podemos afirmar que existe um gênero literário inteiramente dedicado a produzir definições sobre o livro. A maior parte destas respostas terá um fundo otimista, que parecem levar em conta um momento positivo, quase bucólico, criando uma Arcádia onde os pastores foram substituídos por leitores e escritores, o rebanho por livros e o pasto por livrarias e bibliotecas.

Mas os livros existem durante os melhores tempos e durante os piores tempos.

Na escola, o leitor de livros é ao mesmo tempo destacado por sua inteligência e alvo de troças e ironias dos colegas, que o transforma em um pária e mesmo que esse personagem seja uma criação coletiva, a verdade é que o leitor está longe de gozar de uma aceitação positiva por todos.

É curioso notar que entre os exemplos mais comuns usados em críticas aos regimes totalitários estão a censura e a queima de livros. Mas, durante os períodos de liberdade, as pessoas pouco fazem para aproveitar essa liberdade para ler livros. Parece que eles são bibelôs necessários em sociedades livres, desde que não sejam usados para a sua principal função, que é servir de veículo para a manifestação da literatura. No fundo, um livro não lido tem a desvantagem de não produzir nenhuma chama, em desvantagem com o livro queimado.

A bolha não surgiu agora, de fato, muito pouco do que existe no mundo digital é original, e a bolha dos livros sempre apresentou uma membrana pouco permeável. Existem apenas duas maneiras de passá-la: lendo ou escrevendo, que é uma consequência da leitura, e sem a valorização e multiplicação da leitura, o livro permanecerá inerte a literatura não se manifestará.

Não temo pelo fim do livro, qualquer que seja o nome que o objeto de suporte da literatura tenha no momento, mas temo pelo fim dos leitores. Por uma questão de ingenuidade, acreditava que a literatura não encontrava outros adversários senão o esquecimento. Mas, como qualquer produto cultural, a literatura e seu símbolo maior guardam significados políticos e afetam áreas diversas da sociedade, como a educação, fazendo deles um alvo ideal: afinal, o livro é frágil e tem poucos defensores.

A resistência acontece quando uma geladeira cheia de livros aparece no meio da cidade querendo dizer que o brasileiro pode ser sim um apaixonado pela leitura e que aquela iniciativa vai resistir, pois o brasileiro é educado o suficiente para permitir que isso ocorra.

A minha geração talvez tenha sido iludida por um prefácio de um romance formador de uma cultura letrada brasileira (não, literária, que existe e não poderá ser destruída por esses reis de castelos de areia) que, como toda literatura, pudesse incluir todos os brasileiros.

O que resta agora é resistir. É esse o significado do livro que precisamos neste momento. Onde for atacado um livro, um autor, uma livraria, uma biblioteca, um leitor, que exista resistência. Leia, leve livros para o trabalho, para os passeios, para as viagens. Resista lendo, resista escrevendo.

Levante os livros acima da cabeça e resista.

É o que nos resta.

Um pensamento sobre “O livro como forma de resistência

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