O que as mulheres mais desejam?: aquela história do Rei Artur

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Certa vez, ouvi a Sandra Lane contando uma história sobre uma mulher extremamente feia, que por saber a resposta para a pergunta “O que as mulheres mais desejam?”, consegue se casar com um dos cavaleiros do Rei Artur, Sir Gawain, para então revelar que a sua feiura era resultado de uma maldição e que, quando Sir.Gawain ofereceu para ela o que uma mulher mais desejava (a liberdade de fazer suas próprias escolhas), teve o feitiço quebrado.

Pela facilidade, se comparado com outras histórias populares relacionadas com o Rei Artur, que são mais longas, afinal eram as famosas novelas de cavalaria, este conto, muitas vezes conhecido como o Casamento de Sir Gawain e Dama Ragnelle, adquiriu popularidade em narrações orais e é apresentada, geralmente, de um ponto de vista feminista, enfatizando o poder da personagem Ragnelle em fazer Gawain responder o enigma por conta própria.

A história tem origem medieval e apresenta elementos das novelas de cavalaria, até mesmo de maneira subversiva e cômica, e não necessariamente como uma obra feminista.

Ragnelle é um arquetípico medieval conhecida como “Mulher Deplorável”, que aparece em histórias tendo características repulsivas, não típicas das representações idealizadas de personagens femininas nos contos de cavalaria ou amor cortês do período. Ela pode ser feia, nojenta ou rude, se compactar de maneira grotesca ou vulgar. Em geral, a personagem na verdade é exatamente como seria uma personagem idealizada, mas por algum motivo fantástico, se apresenta daquela forma, até ser resgatada pelas ações um herói, ainda que, em geral, esse herói se veja obrigado a agir por conta da iniciativa da “Mulher deplorável”.

A mais famosa destas personagens aparece na primeira versão deste conto, na obra de Geoffrey Chaucer, Os contos da Cantuária. A obra medieval é por si só de interesse para a narração oral, já que conta, em forma de versos (exceto por duas narrativas que se apresentam em prosa) sobre uma peregrinação para visita ao túmulo do Arcebispo Beckett e cada um dos peregrinos narra uma história para passarem o tempo de maneira mais agradável.

O Conto da Mulher de Bath apresenta a história, que tem o Rei Artur, mas não tem Sir Gawain. Nele, um cavaleiro sem nome é condenado por estuprar uma donzela e seria morto se não fosse a interferência da Rainha Guinevere que faz com que ele parta em busca da resposta da mesma pergunta. No restante, o enredo é similar: ele descobre a resposta com uma mulher que exige em troca da resposta o casamento. Depois de uma tentativa inicial de rejeitá-la, depois de conseguir se safar, vai para o quarto com a esposa. Ela revela ser bela e pergunta: qual das duas opções preferiria: uma esposa feia, que não seria desejada por nenhum outro homem, portanto fiel, ou uma bela, que teria muitos admiradores e teria assim muitas chances de traí-lo e ele responde com o famoso “cê que sabe”, quebrando o encanto.

O tratamento de Chaucer é crítico aos costumes da corte e ao tratamento que as mulheres recebem, especialmente em relação aos casamentos, mas isso acontece principalmente pela personagem narradora, a Esposa de Bath, que enumera seus vários casamentos e faz uma crítica à instituição no prólogo, o mais longo e trabalhado da obra, que antecede o conto.

Anos depois, uma canção, chamada O casamento de Sir Gawain, deu nome ao cavaleiro da história. Gawian não costuma ser protagonista de aventuras com personagens femininas, nem é um personagem glamoroso como Lancelot, mas era um dos mais populares cavaleiros da Távola Redonda e talvez, por ser protagonista do popular “Sir Gawain e o Cavaleiro Verde”, que guarda certas semelhanças com a introdução da história, acabou sendo encaixado aqui. Anos depois, uma versão, mais próxima da versão que é popular hoje, surgiu. Nela, o comportamento e a aparência de Dame Ragnelle  são exagerados. É clara a intenção do autor em criticar tanto os elementos do romance medieval quanto do comportamento da nobreza, inclusive por, de certa forma, mostrar como ridícula a decisão de Artur e Gawain aceitarem partir em busca por um ano para descobrirem o que as mulheres mais desejavam sem um motivo qualquer.

Nestas versões, Artur é obrigado aa iniciar sua busca ao ser derrotado/ameaçado por um gigante armado, que na verdade é um nobre rancoroso, já que pode perder suas terras para a coroa (por alguma dívida de impostos). Esses elementos foram perdidos com o tempo, ao menos quando Sandra Lane contou essa história, não havia mais um mundo romanceado de cavaleiros para ser algo de ironias. São outras as prioridades e demandas atuais, afinal o mundo mudou bem mais do que a história, que ainda é basicamente, a mesma de Chaucer e dizem, traz a mesma resposta para aquela mesma pergunta.

 

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