O Prêmio Nobel de Literatura: errar é a sua importância

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O Nobel de Literatura não é um prêmio para o melhor escritor vivo e isso não é uma tentativa de iniciar uma apologia, é apenas uma tentativa de situar como funciona esse prêmio: a maioria dos autores já passou de sua fase mais produtiva e é sua história que é reconhecida pela Academia Sueca. Quando escolhem um autor entre tantos (e felizmente são tantos, pois se houver apenas um escritor relevante no mundo, podemos parar e invejar o destino dos dinossauros) é uma forma de dar significado ao que aquela história representou. Quando Bob Dylan ganhou, havia ali, além da tentativa de autopromoção usando uma figura popular, uma questão sobre a poesia moderna, seus caminhos, como ela é consumida e a valorização da lírica. Com ele foram premiados Leonard Cohen, Chico Buarque e tantos outros que fizeram da música e não do livro, a principal forma de difusão de seus versos.

Discutir os méritos individuais de cada laureado é uma forma de polêmica pueril. É claro que todos (até mesmo Churchill, Pearl S.Buck, Dário Fo, Bertrand Russell, Svetlana Alexiévitch e Dylan) têm méritos óbvios. Eles não impediram a consagração de Tolstoi, Borges, Joyce, Woolf ou Kafka, pois não existe competição. O correto é considerar o significado de cada escolha.

O Nobel deste ano tem sua peculiaridade. Dois autores foram anunciados ao mesmo tempo, depois de um escândalo que cancelou a premiação de 2018 temporariamente. O escândalo era de abuso sexual, mas vazamentos para sites de apostas e a polêmica dos prêmios recentes, que decididamente procuravam expandir o conceito de literatura, também tiveram seu peso na reorganização da academia. Era consenso para quem aguardava o anuncio dos prêmios, que ao menos um dos dois agraciados seria uma mulher e a maior especulação era em torno da direção que a Academia tomaria adiante. Foi uma direção para o passado.

Olga Tokarczuk e Peter Handke foram escolhidos. Os dois têm aparecido nas especulações do Nobel já faz algum tempo. Os dois são autores mais convencionais de novelas e teatro e reconhecidos pela crítica. Os dois são europeus. Essas similaridades já indicam uma posição mais conservadora, ou pelo ao menos, menos audaz da academia. Eles provavelmente acertaram e escolheram dois bons autores.

Ai terminam as similaridades. Olga é uma mulher e se não estivesse ao lado de Handke, não pareceria estar cumprindo cota. É também uma voz atuante na política polonesa, se opondo aos grupos nacionalismos de extrema e assumidamente feminista. Handke é uma pessoa que defendeu o ditador Misolevic, que promoveu genocídio em Kosovo e chegou a negar o acontecimento. Olga serviu como a bacia de água onde a academia lavou as mãos antes de confortavelmente libertar Handke.

O que a academia quer dizer com isso? Provavelmente que o Nobel não deixará política interferir em escolhas estéticas. O que é na verdade uma posição política bem clara. Não existe na literatura, ou na arte, autor que viva no vácuo. Até mesmo o ideal “arte pela arte” não era uma posição inocente, mas sim uma posição política (que devemos diferenciar da carreira política ou do pertencimento a um partido). A Academia foi pequena, não ousando ir mais além do que Hollywood.

Sim, Hollywood, a muito conservadora Hollywood que finge fazer uma revolução sem sujar as mãos. É natural, em um grupo tão grande de eleitores, que os Oscars não optem por posições radicais: não costumam valorizar muito os filmes comerciais demais nem os artísticos demais (Kubrick ou David Lynch nunca ganharam um Oscar de direção e mesmo os Irmãos Cohen levaram o prêmio por um filme bem mais convencional) e nunca tomam posições radicais demais no campo político. Pantera Negra é muito divertido, mas ele não está mudando o mundo. Ao contrário, é um desfile carnaval de comemoração para um mundo que já mudou. Spike Lee está lutando por espaço desde os anos 80’s afinal de contas e a premiação de Hollywood ainda não engoliu o cara.

Não existe presidente melhor para o momento Disney do que Trump. Sua canastrice e misancene ajudam a atrair para sim os alvos das críticas, deixando os verdadeiros temas em debate em segundo plano, assim, os avanços sociais não entram em debate além dos filmes da Disney, que são confortáveis e digeríveis para a população média americana. Como é confortável apoiar Greta Thunberg na ONU e confortável devem se sentir os membros da academia sueca.

Nenhuma revolução é feita sem incomodar. Nos últimos anos, causas que poderiam ter legitimidade surgiram em momentos específicos ao redor do mundo: Occupy Wall Street, 20 centavos da passagem de ônibus, Não vai ter Copa, Racismo da Caçadas de Pedrinho, Primavera Árabe, #metoo e em todos os casos, a reação, uma vez que a poeira baixava, era de extremismo conservador. Não é culpa desses movimentos, como muitos querem fazer ser, e é exatamente o que aconteceu na Academia. De uma tendência a explorar diversidade de obras para ampliar a definição de literatura com prêmios para compositores de música e autores de reportagens jornalísticas, o prêmio voltou ao “Normal”. Ele se acertou.

Conservar (e no Brasil, esse momento é tão estranho que conservar é a atitude mais radical que podemos tomar) pode não ser um problema e faz parte do processo artístico. Mas, quando encaramos uma necessidade alterar formas de consumo e produção literária para lidarmos com os problemas do mercado editorial brasileiro, a discussão política é relevante. Não é uma questão de discutir o papel do estado, isso é um detalhe: toda proposta de formação de leitores e transformação de hábito cultural é uma proposição política. É uma ideologia sendo aplicada na sociedade. O cidadão que se abstém da política como se fosse um prato de brócolis é mesmo que permite a criação de um estado monstruoso, predatório, pois deixará de participar do debate político e não terá influência nenhuma nele. O exemplo do prêmio Nobel é o pior exemplo: a literatura precisa da participação política para persistir.

A Academia podia ter errado e provocado outra discussão. Ou alguma discussão. Do jeito que foi, nós, o resto do mundo, podemos voltar dar a importância devida ao Nobel.


#nobel #liteatura #olgatokarczuk #peterhandke #política

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