Relendo O Cavaleiro das Trevas e A Piada Mortal depois de assistir Coringa

8m3urbokzf6r7jafr3nrl1pct

Sem considerarmos as primeiras histórias dos personagens da DC Comics e da Marvel, O Cavaleiro das Trevas de Frank Miller, Klaus Janson e Lynn Varley e A Piada Mortal de Alan Moore, Brian Boland e John Higgins são as duas obras mais influentes da história dos quadrinhos de super-heróis americanos. As duas foram publicadas nos meados dos anos 80’s, quando Miller e Moore também foram responsáveis por outras obras, que revolucionaram a forma de produção de quadrinhos e, mais importante, a como eles eram percebidos pela sociedade. É fácil medir seus impactos: quase todo filme ou série de TV, mesmo não sendo uma adaptação direta, apresenta referências visuais, temáticas e narrativas que remete a alguma obra dos dois.

Apesar destes pontos em comum, Miller e Moore protagonizaram uma disputa online por terem uma posição divergente sobre o movimento Occupy (apesar de Miller ter se retratado posteriormente). Miller é um artista mais visual, parte do impacto que trouxe para os quadrinhos vem da influência do cinema, além de ter sido um dos primeiros artistas a apresentarem a influencia dos mangas,  o que influenciou o seu traço, que ficava cada vez menos detalhado e mais voltado para experimentos com sombras e cores. Moore vem de uma tradição literária inglesa e leva toda essa influência para os quadrinhos, o que é notável em Watchmen, que é estruturado em capítulos como um romance.

Cavaleiro das Trevas foi publicado primeiro e é essencialmente, a terceira parte do arco da trilogia de Nolan (Batman Ano Um, outra obra de Miller, é a o primeiro filme e A Piada Mortal o segundo filme). O quadrinho de super-heróis americano segue uma tradição cultural moderna: os super-heróis são individualistas, representam traços mitológicos, mas, por serem infantis (à princípio) e menos elaborados, não apresentam a profundidade das novelas fantásticas inglesas (de autores com Stevenson, Wells, Kipling, etc.) nem do cinema Western americanos.

Cavaleiro das trevas é, portanto uma sátira (uma distopia) que apresenta o mito em decadência (ou os mitos, já que Super-homem também é apresentado). Não é uma questão de republicanos e democratas, apesar da posição pessoal de Miller, sua crítica é voltada para sociedade americana em geral e ele não confia em nenhuma instituição, seja governamental (como o exército), seja privada (como a imprensa). O filme Coringa tenta utilizar da ambientação de Miller (a cidade decadente e o pano de fundo social construída pela imprensa), mas falha basicamente por um motivo. A rede de opiniões que Miller cria é muito mais densa e consistente do que a rede do Coringa. Em o Cavaleiro das trevas, as diferentes vertentes ideológicas nunca se fundem, na verdade formam uma rede polifônica que não serve para definirmos nem o certo e o errado, e sim para podermos observar, de longe, uma sociedade americana engessada pela divergência e sem qualquer solução (existem imagens o suficiente que simbolizam a morte da América). Em Coringa, ao fugir das ideologias, o filme iguala movimentos contra concentração de renda com a defensa ao vigilantismo como se fossem a mesma coisa, o que soa falso, e se dissolve, incapaz de sustentar o personagem de Joaquim Phoenix.

Batman está acima desta rede, como um equilibrista (ele nunca cai), mas isso implica que o Batman está certo, pelo contrário, já que o final indubitavelmente mostra que o vigilante não tem mais lugar no futuro (não importa a existência das continuações). Batman se torna um espírito em fúria por ter sido constrangido a não existir em sua plenitude e o Super-homem um ideal domesticado para uso político. A batalha entre os dois não é de forças opostas (homem comum versus super-homem) e sim entre dinâmicas em desarmonia. A fúria do Batman é porque o Super-homem se recusa a continuar agindo como símbolo/exemplo para os outros heróis.

O Batman tenta liderar a juventude, mas é uma figura caricata, que perde seu tempo corrigindo o linguajar dos jovens, e é uma paródia do símbolo que deveria ser. Ainda busca por justiça, mas é ineficaz e sua presença causa problemas que deveria resolver. Até mesmo a Robin é usada para ironizar sua masculinidade (que é realçada pela violência do personagem). O fato de Miller ter transformado o personagem em uma menina, não esconde o passado do personagem e vários painéis mostram a interação entre os dois, em posições que mostram intimidade física que tem uma clara alusão sexual.

Cavaleiro das Trevas tem clara intenção de apresentar a destruição de um sistema falido, sem procurar construir soluções ou até mesmo propor a emergência de uma personalidade central que mereça ser repudiada ou idolatrada. Batman e Super-homem existem, mas nada do que fez os personagens um dia heróis ou símbolo ainda resta. É curioso, como muitos dos temas que Miller apresenta durante a graphic novel são atuais: problemas ecológicos, racismo, homofobia e conflitos internacionais, é claro, sem a visão atual desses problemas. Coringa se perde: a sociedade destruída elege um novo “salvador”, sendo uma sociedade narcisista, enquanto o os dois personagens de Cavaleiros das Trevas preferem abandonar seus egos para permitir alguma esperança no futuro.

Já A Piada Mortal tem a estrutura típica de um conto: a partir de um argumento simples (o dia ruim do Coringa), Moore constrói a confrontação entre o Coringa e o Batman. Como Moore é um escritor, a arte ficou por conta de Boland, um grande ilustrador, mais tradicional e detalhista. Os quadros passam e Moore usa sua técnica favorita de flashbacks, aproveitando a capacidade de Boland (como utilizaria a de Gibbons no Watchmen) para pintar um quadro psicológico do Coringa. A graphic novel não tem ação propriamente dita, mas é sem dúvida a principal obra quando se fala no relacionamento entre os dois personagens.

Leituras atuais focam muito no uso da personagem Batgirl, especialmente sob o ponto de vista da revisão feita pelos estudos feministas. Não temos a opção que do Coringa em trabalhar com um passado de múltipla escolha então o mais relevante, quando possível, é cobrar dos artistas a confirmação ou revisão de algum tema, já que as obras continuam e continuaram fisicamente as mesmas. Na época da publicação da Piada Mortal, além da Batgirl, não existiam personagens femininas no universo Batman com qualquer forma de independência além dela, da Mulher-Gato, da Hera Venenosa e ocasional namoradas de Wayne como Vicky Vale e Silver St.Cloud, introduzidas nos 60 e 70, quando Dick Grayson se afastou de Gotham, mais como forma de afastar “rumores” sobre a orientação sexual do personagem (e portanto dos seus leitores). Hoje, a situação se modificou, Alan Moore já externou seu arrependimento pela forma como utilizou a Batgirl (apesar de Rachel ser usada da mesma maneira no segundo filme de Nolan, sua morte nas mãos do Coringa, servindo como gatilho emocional para a loucura de Harvey Dent) e é possível ler a série pelo que é: um embate entre razão e emoção simbolizada pelos dois personagens (a mente é o Comissário Gordon).

O Coringa não rouba a cena, mas tem espaço especial, se considerarmos o pouco que tinha em várias histórias anteriores (o personagem havia sido resgatado nos anos 60-70 e transformado no serial-killer que é hoje), basta compararmos com o espaço que ele teve na Cavaleiro das Trevas (ele sequer é o adversário final da revista). Os anos 80’s definiram os dois personagens como antagonistas perfeitos a partir desta revista. A ausência do Batman no filme Coringa ajuda a criar o clima difuso da obra. Não porque o personagem representa um ideal moral especial, por mais que ele tenha princípios considerados “bons”, mas também pelos personagens que ele traz junto (eu diria que a verdadeira bússola moral deste universo). É um dos pontos certos de Moore, a disputa entre os dois não é sobre a Mulher-Gato (algo que já havia acontecido nas publicações tradicionais) ou Dick (uma extensão do Batman), ou seja, a estrutura temática é bem arquetípica e atemporal. Sem o Batman, que também teve um dia ruim, a loucura do Coringa parece ser a única escolha. Moore repudia a obra, que considera menor na sua carreira, mas isso parece irrelevante quando imaginamos a história como um conto, que explora perfeitamente tema com a dose certa de intensidade, mesmo com os problemas que apresenta (além da questão Bargirl, é evidente que igualar o “dia ruim” do Coringa com o de Bruce Wayne, desconsidera todo amparo que Wayne recebeu para conseguir lida com seu trauma).

Não é sem motivo que o Coringa busque nessas duas obras suas principais bases temáticas e narrativas, porém, Miller e Moore dominam a linguagem que utilizaram (ou estavam criando) com muito mais competência. A palavra clássico perdeu muito do seu significado, mas parte do apelo de uma obra clássica é existir mesmo que seja em outra obras, por possuírem um apelo universal irresistível. As duas obras resistem às críticas dos mais variados pontos de vistas (inclusive dos autores) e até mesmo de um duelo entre os criadores. É cedo para dizer que são clássicos, mas os primeiros passos já foram dados, especialmente se considerarmos que ainda são superiores às obras que estão gerando, se considerarmos o filme Coringa.

João Camilo de Oliveira Torres – Quem quiser me ouvir falando de séries e filmes baseados em HQs, basta clicar aqui e acompanhar o X-POILERS!

2 pensamentos sobre “Relendo O Cavaleiro das Trevas e A Piada Mortal depois de assistir Coringa

  1. Pingback: Calças! | Terceira Terra

  2. Pingback: Estou pensando numa piada | Terceira Terra

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s