Coringa: a piada que mata

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A banalização do mito na sociedade atual, em que a palavra é usada para se referir a eventos ou indivíduos que não explicam nenhum evento formador significativo, não impede que processos bem próximos dos que formaram os mitos antigos ocorram em países modernos. Por ser uma nação, que sempre procurou construir sua identidade a partir de uma (fantasiosa) ruptura com o velho mundo, os Estados Unidos foi território fértil para esses processos: os westerns (já comparados com os épicos por Borges), os super-heróis, a Corrida do Ouro, a Guerra Civil, os gangsters fizeram parte deste processo. Assim como os serial-killers.

Não há nenhum motivo para crer que a sociedade norte-americana tenha mais ou menos propensão para produzir serial-killers ou que eles sejam uma “invenção” moderna (a palavra é recente como pode ser visto na série Mindhunter da HBO), mas a figura foi definitivamente incorporada à cultura americana: um indivíduo que vive fora da sociedade e ao mesmo tempo representa os aspectos mais aterradores desta sociedade. Assim, o serial-killer é charmoso, inteligente, quase irresistível. A verdade – ou a realidade, melhor dizendo – discorda desta ideia que deu ao mundo versões de Ted Bundy ou Hannibal Lecter que escodem a mediocridade e covardia do típico serial-killer.

O Coringa, geralmente é apresentado desta forma: tão inteligente quanto o Batman, brilhante até. Não o Coringa do filme de Todd Phillips, estrelado por Joaquim Phoenix. Ele é exatamente como um serial-killer deveria ser: medíocre, vítima de abusos, descontrolado, narcisista, delirante e até mesmo incompetente naquilo em que deveria ser bom: contar piadas. O Coringa, ainda Arthur Fleck, ri na hora errada. Parece ter sido criado com o manual do FBI debaixo do braço.

O roteiro do filme funciona quando mantém esse objetivo: permite que Joaquim Phoenix possa construir esse personagem com toda a liberdade. Não é um filme sobre a origem do Coringa, ele é resultado de uma mistura da criação e genética de Arthur Fleck. É um filme sobre o dia ruim que despertou o serial-killer, tema de uma das principais revistas com o personagem, A Piada Mortal. Grande parte do roteiro busca influência nos quadrinhos com sutileza o suficiente para fazer soar verdadeira a afirmativa do diretor, de que o filme não dialogaria com os quadrinhos. Outra obra relevante do universo do Batman aparece por toda parte: O Cavaleiro das Trevas. Ela é a base para construção de cenas (como a cena final no Talk Show) e do cenário: a Gotham dos anos 80 é de lá, não de Taxi Driver.

Mas é claro, a outra “alma” do roteiro é a obra de Scorcese. O filme passa constantemente pela fronteira entre o plágio e a releitura. O mais fácil é imaginar que decidiram preguiçosamente inserir o Coringa no outro filme. É como se decidissem fazer uma origem do Lex Luthor usando o Poderoso Chefão, apenas modificando Michael Corlone pelo inimigo do Super-homem. A vantagem é que a forma emprestada da obra de Scorcese (eu chego a pensar que é fruto de uma admiração pelos personagens de Robert de Niro, já que também existe uma boa dose de influência do Rei da Comédia) permite que o Coringa exista sem o Batman. Não tem como fugir: Bruce Wayne, Alfred, o Asilo Arkham e piadas como super-ratos evocam os quadrinhos e surpreendentemente, o Coringa do filme é muito fiel ao espírito do personagem, sem que isso se torne invasivo, como os easter eggs dos filmes do MCU.

Há, porém momentos mais fracos quando o filme tenta lidar com a política. É algo que até faz parte do enredo, mas falta uma base sólida para sustentar as questões que o filme traz. Ele não serve como símbolo da anarquia e luta contra o sistema, como por exemplo, ainda que desvirtuado, serviu o personagem de Ledger/Nolan, mas a mobilização social e as questões do conflito de classe estão presentes no filme, que tenta se afastar, quase infantilmente, quando o personagem declara não acreditar em nada daquilo.

O filme não é uma glamorização da violência – Arthur Fleck é descontrolado e sem objetivos, não tem controle sobre as situações que acontecem – e consegue evitar a tentação de provocar muita simpatia pelo personagem por sua vitimização. Ele é incomodo demais e a violência é condenada explicitamente por outros personagens, ainda que a cena peque por ser forçada . O filme parece querer criticar o público que participa desta glamorização, mas a mistura com protestos civis, em que as máscaras de palhaço substituem as máscaras do V, e a falta de sutileza para apresentar o problema e contundência para criticá-lo pode deixar vaga qualquer discussão que pudesse ser gerada pelas cenas.

Talvez o maior alvo da crítica do filme seja a comédia. O filme constrói um paralelo entre o humor do Coringa e o humor atual. O Coringa defende a comédia, o direito de fazer qualquer piada e questiona quem tenta moralizar a comédia. Mas ele está defendendo a ideia que matar alguém é engraçado. Substitua isso por “piadas racistas” e você encontra uma crítica aos comediantes que insistem em defender racismo ou misoginia por humor. No filme, piadas matam e na realidade também. A premissa fica mais clara, quando o Coringa nega ser político, que, não cola, pois suas ações têm impacto na sociedade e, portanto são políticas.

Parte da falta de estrutura para uma crítica política mais sólida é a falta de humanidade do filme. Neste caso, a força do filme é também sua fraqueza: exceto o Coringa (Serial-Killers são bem humanos), nenhum personagem é significativo. Nem Murray, o apresentador, vivido por de Niro, nem Penny, a mãe do Coringa, muito menos a vizinha, Sophie, cujo relacionamento com Arthur parece forçado (mas penso que esse relacionamento seja em parte um delírio de Arthur, pois a última cena entre os dois apresenta um diálogo que contradiz todo o relacionamento apresentado em tela). Sem uma multidão, toda política parece perder sentido.

A polêmica em torno do filme parece estar confusa por essa falta de consistência e fechamento do filme. Não que seja uma obrigação e filmes, como todas as obras de arte, não acontecem no vácuo. Elas são um reflexo da sociedade na qual foram criadas. Perguntar se precisamos de um filme como Coringa agora é perguntar se precisamos do vento que acabou de espalhar as folhas no quintal. Lidar com as obras de artes que produzimos, não ignorá-las, que se torna necessário.

E temos de lidar com a impossibilidade de desviar o olhar enquanto Joaquim Phoenix está nas telas. Nestes momentos, o Coringa é um filme que justifica sua existência.

João Camilo de Oliveira Torres – Quem quiser me ouvir falando de séries e filmes baseados em HQs, basta clicar aqui e acompanhar o X-POILERS!


#coringa #batman #quadrinhos

2 pensamentos sobre “Coringa: a piada que mata

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