Defendam o menino que diz que o rei está nu

48c43421462071d6ec2fcb1b86ef8c8a

Não há muitas diferenças entre a versão da história do rei que é enganado por trapaceiros e sai a desfilar nu diante do público do Livro El Conde Lucanor de Dom Juan Manuel e a que Hans Christian Andersen registrou séculos depois: em ambas o rei e seus seguidores, temendo revelar sua incapacidade, acabam não denunciando a trapaça e ao final, uma pessoa que observa o desfile do rei, no caso de Andersen, um menino, aponta e diz que o rei está nu.

De maneira geral, as interpretações deste conto focam no menino e sua coragem de dizer a verdade que todos percebiam, mas fingiam não ver, por não se impressionar com o desfile do poder representado pelo monarca. Tudo bem, podemos usá-la vez ou outra.

Porém, existe outro ponto da história que também é importante: os trapaceiros. A tacanhice dos nobres e do próprio rei não pode tirar da dupla o devido mérito: seu plano é simples, mas engenhoso e imaginativo. Diante de cada um dos nobres que vem fiscalizá-los, eles criam o tecido e a roupa, não no mundo real, mas na própria mente. São obrigados a produzir uma performance e durante esta performance agem de maneira convincente como se a roupa existisse. E existia. A mediocridade dos nobres se dá por que eles não são capazes de imaginar como os trapaceiros. Aceitam o que está oferecido, pois não têm nada na mente para considerar todas as possibilidades. Se soubessem imaginar, imaginariam que eram vítimas de uma trapaça.

No fundo, o menino que diz que o rei está nu é alguém que estabelece a verdade por que pode imaginar um rei tão estúpido que sairia nu acreditando estar vestido. A imaginação é uma ferramenta primordial para que um indivíduo possa atribuir significados aos símbolos que encontra no mundo e assim produzir uma interpretação, que respalda ou desafia a ordem vigente. Não é loucura: Ortega y Gasset teorizou que o Quixote era sano, o mais sano do homem, por ser capaz de imaginar e assim estabelecer uma nova ordem no mundo, que abandonava ideias medievais de cavalaria para um humanismo, patético neste caso, mas muito mais real do que as “trapaças” que os livros estavam oferecendo.

A literatura, as histórias, a arte são essas trapaças necessárias para libertar a imaginação do indivíduo e muitas vezes do povo que se vê diante de certezas e verdades impostas, todas medíocres, pois são construídas pela ignorância e falta de imaginação. Sem a imaginação para apreciar um lobo devorando uma menina, uma menina que usa uma pele de asno ou crocodilo que engoliu um relógio, o que teremos? Um mundo cinza, chato e brutal.

Em um conto de Juan Valera, O Cozinheiro do Arcebispo, vários cozinheiros tentam agradar um arcebispo, que desejava apenas comer o feijão feito da mesma forma que seu antigo cozinheiro fazia. Ninguém conseguia, até que um jovem decide viajar e perguntar para esse antigo cozinheiro a receita. Depois de ter sucesso e agradar Arcebispo, o novo cozinheiro revela que a receita era uma farsa e não havia feijão ali (por isso todos falhavam antes: tentavam usar feijão e não imaginavam uma alternativa) e o Arcebispo lhe responde: “Pois engana-me tu também, bobalhão”. Quem foi feito de tolo? O Arcebispo que imagina um feijão onde não há nenhum ou o rei que não imagina a nudez onde não há roupas?

O homem sem imaginação está constantemente nu e não é a nudez o problema. O problema é a ausência de alguém que vai denunciar a nudez, alguém que tem imaginação preparada para o uso. Não tentem vestir o rei, mas sim proteger o menino que grita que o rei está nu.


#hanschristianandersen #juanvalera #domjuanmanuel

Anúncios

Um pensamento sobre “Defendam o menino que diz que o rei está nu

  1. Pingback: Ela não tem pinta de Spice Girl | Terceira Terra

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s