Batman, Watchmen, Blade Runner: as falsas certezas que inventamos

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Quando eu era pequeno, existia uma história que muita gente acreditava: comer manga e tomar leite ao mesmo tempo podia causar mal-estar. Eu não gostava de leite, então, isso nunca me afetou, mas também era iludido por essa broma.

As pessoas acreditam nessas histórias de aparente insignificância sem que isso indique ou não alguma falta de inteligência. É algo bem diferente de contestar o conhecimento científico e acreditar que a Terra é plana ou que vacinas são problemas e não soluções. Também serve para o povo lembrar que não é de hoje que uma lorota (ou o termo americano, fake news) funciona.

Tem gente que acredita que Michael Keaton foi o melhor Batman do cinema. Não um bom Batman, mas o melhor. Os argumentos variam, mas em geral ele parece ter sido um bom Bruce Wayne.

O problema é que Bruce Wayne basicamente não existe nos dois filmes de Tim Burton. Ele quase não tem falas, não tem relacionamentos a não ser com mocinha (ou vilã do filme), o que é uma extensão do relacionamento delas com o Batman e francamente, não se parece em nada com Bruce Wayne. Há quem argumente que Bruce Wayne não é importante para o Batman, mas isso é falso. Até pode não ser importante na visão de Tim Burton (mas de certa forma, tanto o Coringa quanto a Mulher-Gato são mais importantes do que o Batman na visão de Tim Burton), mas Bruce Wayne é uma máscara criada que tem a mesma importância do Batman. Ele também é um exemplo do ápice humano. Keaton não é esse exemplo nem como Wayne ou como Batman, de fato, a roupa que ele tem de usar para esconder que não tem sequer a capacidade de ser o Batman, impede que o personagem se mova com agilidade. Todas as cenas de combate que envolvem o personagem são robóticas, com cortes rápidos e close-ups para esconder a inabilidade de Keaton. Se os filmes de Burton pedisse um Batman convincente como os de Nolan pediram, seriam bombas. Felizmente, pediam  Jack Nicholson sendo Jack Nicholson e Michele Pfeiffer encarnando a revolta de uma mulher solitária contra os homens que nunca lhe deram atenção.

Como Batman, Keaton foi um ótimo Birdman.

Outra coisa que as pessoas acreditam é que o final do filme Watchmen é superior ao final da Graphic Novel de Alan Moore. Vejam, as pessoas falam isso mesmo depois de admitirem que o filme é ruim. Mas é uma tolice, tirando os créditos, todo o filme é um lixo que deveria ser esquecido. Não acrescenta nada à obra de Alan Moore.

Mas qual é o argumento em que essa afirmação é baseada?  Que o plano de Ozymandias na minissérie, teleportar um monstro alienígena falso, é ridículo e irrealista demais. Um gigante azul peladão, vejam só, causando o mesmo acidente, seria mais aceitável. Joguem foram a noção de Suspension of Disbelief. Ignorem que durante décadas o final da revistinha foi aceito com brindes de congratulações e a óbvia linhagem literária de Moore, que estava usando H.G.Wells como referência. Tudo parece válido.

Mas vamos imaginar por um segundo que uma ideia é realmente mais crível que a outra. O argumento continua furado.  Watchmen é uma obra de conteúdo fantástico, “ser mais crível” é um critério que não deve ser aplicado para analisá-la. Durante décadas, tivemos capacidade de fantasiar com o monstro-cara-de-vagina criado por Moore sem olhar para a revista e dizer “isto é ridículo”. Então, vem um filme e de repente isso deixa de ser verdadeiro? Sério, na mesma época em que a Marvel aprendeu a vender filmes de Super-heróis com os uniformes coloridos, em que mortos-vivos e dragões dominaram o horário nobre da televisão e que todos se emocionaram com as aventuras de Chihiro por uma terra feita de fantasia?

Mas pior é pensar no que Alan Moore estava propondo. Watchmen é uma peça sobre a Guerra-Fria, que ao contrário do discurso neoliberal dos anos 90, não acabou com a derrocada da União Soviética. Putin que o diga. O Doutor Manhattan (o tal gigante azul peladão) era na revista o mesmo que as armas nucleares – ou ainda melhor, uma arma acima das armas nucleares – eram durante a Guerra Fria. Ele não é visto como ser humano e mesmo ser um super-herói, algo intrínseco à cultura norte-americana, fez dele algo humano para os soviéticos. Sua explosão não causaria uma união em torno de um inimigo em comum, que é a paz provisória de Ozymandias que acontece ao final da revistinha, mas indicaria um Estados Unidos fragilizado. Nós vimos isso em eventos reais: o acidente em Chernobyl fragilizou a União Soviética, não o contrário e o ataque terrorista do 11 de Setembro, protagonizado por grupos mulçumanos que um dia foram ligados aos Estados Unidos e seus aliados no Oriente Médio, não criaram uma união entre Putin e Bush. Cada um usou o momento para estabelecerem suas agendas e os conflitos no Oriente Médio aumentaram.

Enfim, uma das lições de Watchmen é que os super-heróis não eram o problema. Psicopatas – o herói americano radical e violento – como Rorschach e O Comediante eram o problema. Nite Owl e Silk Spectre não. Eles sobrevivem e até brincam de voltar a atuarem como vigilantes no final da revista. Se um dos heróis fosse a causa do atentado em Nova York, então a perseguição aos heróis continuaria, justificando o moralismo de extrema direita e até mesmo o aumento da população civil armada, para resistirem contra esses heróis, ou no caso, o único herói com poderes. Ou seja, o final de Snyder é inferior esteticamente, moralmente e até mesmo passa uma mensagem diferente da mensagem da série original.

É possível ser diferente, ter uma mensagem diferente. Mas não faz disso melhor do que o original e o final do filme ou faz do Ozymandias, o homem mais inteligente do mundo, um idiota com um plano tolo ou é bem menos realista do que o final de Alan Moore.

Outra verdade que inventaram é a que a versão original (ou seja, a primeira) de Blade Runner, usando cenas de O iluminado e a narração em off de Harison Ford é inferior às versões de Ridley Scott. Engraçado, eu cresci nos anos 80 e a narração em off era elogiada. Combinava com o clima noir do filme.

Outro motivo que usam para elogiar as versões de Scott,  é o famoso “Será que Deckard (o personagem) de Ford era ou não um replicante”. Nunca foi necessário ver nenhuma das edições especiais que lançaram nos 90, para ter essa dúvida. Essa era uma questão que o filme original também levantava. E quer saber… Grandes bolotas.

Em qualquer uma das versões o ponto alto do filme é monólogo de Rugter Hauer. Nele, descobrimos que, além da vontade de sobreviver e de ter sentimentos, os replicantes também têm imaginação e se maravilham com o universo. Todo o filme discute na verdade “o que é o ser humano”, o seja, “são os replicantes humanos ou não?” é a grande questão, que inclusive combina mais com o pensamento de Philip K.Dick. Isso faz com que a questão sobre Deckard seja algo menor. Se os replicantes são humanos também, então Deckard ou é humano ou humano. Essa “surpresa final” é um mero truque narrativo barato, que some diante do restante do filme.

E, não sei se vocês notaram, Ridley Scott teve a chance de retomar a investigação sobre a origem de Deckard. Ele poderia ter produzido um filme sobre esse tema. Mas Blade Runner 2049 nem toca no assunto. O filme é novamente sobre os replicantes serem humanos. Rachel teve um filho: algo que apenas os humanos poderiam fazer. Não é sobre Deckard ter tido um filho. A diferença entre os Replicantes e outras formas de inteligência artificial fica representada pela personagem de Joi, a companheira virtual do Oficial K vivido por Ryan Gosling. Ela é feita em série. Ela é programada e age de acordo com o programa dela. O encontro com o anúncio de Joi, que muitos interpretaram apenas como o momento em que K descobre sua insignificância precisa ser revisto. É o momento em que K descobre que ele agiu de acordo com a sua consciência e que Joi sempre agiu de acordo com um programa. É a descoberta da humanidade por parte dele.

Evidentemente, que estamos tratando de obras de arte. Pessoas têm experiências diferentes quando expostas a uma mesma obra de arte, portanto, é perfeitamente possível que tenham opiniões diferentes sobre essas mesmas obras. Mas existe uma diferença entre opinião e análise e elas nem sempre combinam. Mas leite e manga? Sem problema.


#alanmoore #watchmen #batman #bladerunner

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