A Princesa Prometida e o que devemos esquecer

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O primeiro contato foi com o filme. Ele passou muito rapidamente pelos cinemas daqui, certamente num dos menores da época, algo como o Pathé, portanto não tinha muitas expectativas quando aluguei o filme em uma locadora de VHS. Era uma fita pirata mesmo.

E por isso foi uma grande surpresa. Na época, até a Disney produzia desenhos de fantasia sombrios. Era o mercado ainda tateando em busca das diferenças entre o público juvenil e infantil. A Princesa Prometida não estava nem aí para isso: era um filme alegre, espirituoso e engraçado. Sem tentar ser uma comédia. Ele era engraçado sem nem precisar ser. Na cara dura. Havia uma parte sobre um avô lendo para o neto, que parecia justificar essa cara dura, como se fosse parte do esforço do avô em contar uma história que ele gostava para um neto que já não via muito sentido naquilo.

O filme nunca se tornou um grande sucesso, mas aqui e ali, apareciam as pessoas que lembravam uma ou outra cena. Não era um filme “que você tinha de assistir”, coisa geralmente reservada para filmes que você pode deixar de assistir sem nenhuma culpa, mas um filme que certamente “você já tinha assistido”.

Nem os atores fizeram muito sucesso a partir do filme. Dos mais novos, apenas a princesa, Robin Wright tem uma carreira de certo sucesso. O mocinho, Cary Elwes teve momentos de fama e até mesmo foi um Robin Hood em uma paródia realizada por Mel Brooks. Fazia muito sentido, afinal A Princesa Prometida parecia entender corretamente o motivo do sucesso dos filmes de Errol Flynn e Olivia de Havilland: todo mundo levava aquilo muito a sério, menos Errol Flynn que compreendia que era uma piada o tempo todo.

O livro de William Goldman demorou a chegar ao Brasil e ficava viva a curiosidade de saber como era a história escrita. Neste ano eu li a edição da Intrínseca e mais uma vez fui surprendido. Não com a história, que era basicamente a mesma do filme, e que resurgia na medida em que a leitura avançava, cena a cena. Diferente era a “moldura” da história. Existe um país falso, um livro falso, editado à revelia e um pai e um filho. Coisas que pareciam fugir dos contos de Borges ou Calvino, mas com o mesmo humor despretensioso que dava charme ao filme. Mas era o pai e o filho o ponto principal do livro.

O pai realmente escolhia os trechos que lia para o filho para tornar a leitura melhor. Mas desta vez, ele fazia com o objetivo de resgatar os laços com o filho. E se tratava de algo que era uma espécie de tradição, pois era o que o pai havia feito com ele. É um livro sobre a formação de um leitor por meio da leitura em voz alta. E foi uma das leituras mais agradáveis (no sentido de prazer mesmo, do prazer que descobre sorrisos rápidos nos nossos lábios) deste ano.

Não é estranho que seja um livro ou filme tão fácil de esquecer, principalmente os detalhes. Não é que A Princesa Prometida seja uma diversão pouco nutritiva, mas gostosa tipo brigadeiro. Mas é que isso é o que fazemos com as leituras que nossos pais fazem para nós. Nós esquecemos a história, mas lembramos do ato. Essa leitura dos nossos pais é uma espécie de primeiro guia de como funcionam os sonhos. Esquecemos deles, mas restam os sentimentos que eles provocam, ou traduzem. Nossos pais estão nos ensinado isso: a lidar com sonhos e suas lembranças.

Isso apenas prova como A Princesa Prometida é uma boa fantasia. Algo feito do material dos sonhos, como diria Ariel. E isso é uma grande vantagem. Toda vez que você ver um autor de fantasia querendo transformar o fantástico em realidade desconfie. A fantasia é decididamente a mais forte das duas. Ela pode se dar ao luxo de ser imaginada. Ela pode ser esquecida sem deixar de ser. Ela pode ser resgatada com a leitura.

É isso que A Princesa Prometida parece querer nos fazer entender.


#aprincesaprometida #williamgoldman

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