Ulysses também não tinha partido

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Vamos falar de James Joyce.

Não se preocupe: falar de Joyce sem ter lido as obras dele é uma tradição literária que data deste a publicação de Ulysses.

E será sobre de Ulysses que iremos falar.

Eis uma obra que provocou uma divisão no século XX: se você é um leitor membro da elite, você tem que ao menos falar que leu Ulysses. Se você quer acusar os outros de esnobismo, você tem de negar que leu Ulysses. Pode mentir em ambos os casos.

Mas não importa em qual lado você está: todos sabem que Ulysses foi proibido na Inglaterra e nos Estados Unidos. Como a obra havia sido publicada na França, alguns leitores partiam os livros e contrabandeavam as páginas escondidas debaixo das roupas para os leitores ansiosos desses dois outros países. É uma das histórias mais bonitas da literatura e sonho com as diferentes versões de Ulysses que foram criadas com tal método.

Um motivo é bem simples: Joyce descreveu Dublim, seus habitantes e diálogos com um naturalismo derivado de Zola são tão perfeitos que ainda acontece, no Bloomsday, no dia 16 de junho, que é o dia em se passa a ação da obra, das pessoas conseguirem se orientar pelas descrições do livro e andarem por Dublim, recitando as passagens que aconteceram exatamente naquele local. O livro é vulgar e essa vulgaridade culmina no famoso capítulo final, o monólogo de Molly Bloom, quando ela passeia por suas fantasias sexuais – não de forma erótica, isso até mesmo o juiz que retirou a proibição do livro nos Estados Unidos concorda, nem gratuita, pois parte da trama reside na tensão criada pela única traição que ela havia cometido – e se masturba durante o monólogo.

O problema é um: Joyce conhece bem o diálogo vulgar (como quem leu as cartas para a esposa Nora pode constatar), mas também conhece a literatura dita “erudita” muito bem. É um grande linguista. E assim como Wordsworth quando publicou os poemas que deram início ao romantismo inglês provocando polêmica por introduzir linguagem vulgar e seus temas na poesia (eu diria que uma das histórias da literatura inglesa é a história da tensão causada pelo uso da linguagem vulgar e a reação a este uso, mas este é outro assunto e um tanto incipiente, que demanda mais provocações, reflexões e dias para ser desenvolvido), Joyce não está usando a linguagem vulgar. Está usando uma linguagem poética extremamente elaborada que apenas parece ser vulgar. Seus personagens são homens cotidianos, mas incomuns, únicos. Dá-lhe Coleridge e a suspension of disbelief.

Assim, a obra mais revolucionária, intrigante e complexa da língua inglesa era proibida por ser vulgar. (Talvez, pois depois dela, Joyce escreveria a ainda mais impossível Finnegans Wake, mas essa, as pessoas nem fingem que conseguiram ler, pois seria uma lorota igual do cara que, depois de ouvir que o rival havia escalado o Himalaia, afirmou que havia ido até a Lua. Haja Cyrano para ter tanta cara de pau).

Isso, a obra que é o símbolo do elitismo literário do século XX não era lida por ser vulgar. Fui obrigado a repetir, para você perceber como é engraçado. É como se alguém proibisse Beethoven por que uma moça fazia o quadradinho enquanto ouvia ou por que seria barulho tocado em favelas por marginais. O que seria perfeitamente aceitável.

Sim, Joyce quebrou paradigmas literários de tal forma que muitos dos principais críticos literários – que deviam ser, afinal de contas, os únicos que leram o livro – se viram obrigados a atacá-lo e aceitar esse argumento absurdo da vulgaridade. Até mesmo Virginia Woolf (mas ela se lembrava da casa de Carlyle e nunca foi tão livre quanto desejava). Esses críticos não foram esquecidos na medida em que os melhores argumentos a favor de Joyce – em geral encontrados na sua própria obra, como é a regra nesses casos– foram esmagando as avaliações negativas. Ah, seus nomes foram embaralhados em uma sopa de letrinhas preparada pelo tempo e que Finnegans Wake tentou emular, mas a tentativa de censura continua sendo lembrada…

…como motivo de escárnio. A história é inclemente com a ignorância. Ela sabe que os motivos da censura não são éticos. Ninguém quer proteger os mais fracos. Ninguém quer justiça. Ninguém quer igualdade Eles apenas querem sua própria segurança. Querem que as mudanças parem. Querem que os outros continuem distantes. Desconfie de todos que oferecem uma mão aberta (e tremida) para proteger a nossa sociedade de coisas que você pode identificar facilmente como pertencendo aos outros. Da cultura deles. Da religião deles. Das escolhas deles. Tenha medo apenas dos seus iguais.

Afinal, foi o medo das inovações de Joyce que motivaram as críticas ao Ulysses. Deve ser o mesmo medo do Tiranossauro ao ver surgir uma pena em um filhote que acabou sair do ovo.


#jamesjoyce #ulysses #censura #escolasempartido

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