Lolita não tem partido também

lolita

Lolita é um livro polêmico.

Até o autor, Nabokov, que algumas vezes parecia viver em um mundo à parte (onde Dostoievsky era um mero imitador de Gogol), concordaria com isso. Existe uma espécie de sorriso malévolo por detrás da prosa elegante que encontramos no Lolita.

Mas essa malevolência não é a vontade de perseguir meninas entre 12 e 14 anos. Ela direcionada aos psicoterapeutas e demais seguidores de Freud, que Nabokov (assim como Borges ou Kafka) detestava. O livro é feito para fazê-los de tolos. HH é para Freud o mesmo que Dr.Pangloss era para Leibniz no Cândido de Voltaire. Uma sátira eficaz.

O livro é belíssimo também. Incapaz de escrever sem ser Nabokov (Incapaz de ser Dostoievsky, acrescento com a minha versão do sorriso malévolo), ele criou um dos vilões mais refinados e interessantes da literatura. É muito difícil entender que HH é um monstro. Nem tanto pela técnica do narrador não confiável, mas muito pela linguagem e sofisticação do personagem. Ele é um amante da literatura.

Sem aceitar Freud, Nabokov não consegue incluir no paraíso temporário (se é que exista algum paraíso que não seja efêmero) uma serpente. Jung leva a melhor sobre Freud entre os literatos: afinal, a literatura funciona melhor como uma criação coletiva e universal do que como mensagens particulares que comunicam apenas com seus leitores específicos. Nabokov apenas sugere a corrupção neste Éden, mas precisa pegar emprestados símbolos universais da literatura, para sugerir as intrusões satânicas. É o papel que as referências à Poe têm na obra.

É também uma obra terrível. HH não é um monstro feito o Minotauro ou a Esfinge. Não há um herói para derrotá-los, nem sequer para enfrentá-los. Ele sobrevive (pelo ao menos até o fim do livro) esbanjando hipocrisia em elegantes tapas no nosso rosto. Nós, e toda sociedade, fomos incapazes de lidar com ele. De derrotá-lo. De salvar Lolita.Isso magoa, pois esse tipo de monstro, em geral, só é descoberto quando é tarde demais.

Não incomoda exatamente por tentar jogar na nossa cara que a nossa sociedade é cheia de HHs. Mesmo a nossa, pois cresci vendo a Xuxa, que sempre apelou sexualmente para criar a personagem de seus programas e que completava o cenário com as Paquitas, versões adolescentes dela, devidamente trajando uniformes que incluíam shorts ou saias bem curtas. Quem somos nós para comentar algo sobre os japoneses e suas meninas vestidas de uniforme escolar? Não é assim, pois uma falha de Nabokov é que HH é sofisticado demais. Não é um qualquer.

Mas Lolita é uma qualquer. O mundo dela é um mundo comum a todos. Por isso, terminologias criadas por Nabokov como Lolita ou ninfeta fazem agora parte de idiomas em todo mundo. Por isso e pelo talento de Nabokov ao manipular a linguagem. Lolita mirou em Freud e acertou a pedofilia em cheio. Sua polêmica fez do tema algo passível de discussão, ou talvez tenha dado à sociedade, uma linguagem comum que nos permite reconhecer e falar do tema.

Isso é importante, pois, como dissemos, HH nos choca por que monstros como pedófilos são geralmente percebidos tarde demais. Por isso, quando vemos tentativas de impedir a leitura em escolas de livros que tratam do tema ou quando vemos iniciativas que condenam a educação sexual em escolas, temos de ficar chocados enquanto os HHs fazem uso de seus sorrisos malevolentes. Mas a malevolência desta vez não é contra Freud.

Os maiores interessados em entenderem, reconhecerem e aprenderem uma linguagem sobre a pedofilia são as principais vítimas: as crianças. É uma chance de derrotarmos HH. Elas não vão ler Lolita, que, como dissemos, busca tantas referências literárias, que sua compreensão depende de uma leitura de Poe, ao menos. Que leiam histórias de princesas de contos de fadas e coelhos em poemas.

Você pode pensar que, uma vez que você tem certeza de não ser um monstro, ao menos não deste tipo, que sua criança está segura. Mas o coleguinha dela não estará. Quando você tenta impedir que uma sala inteira receba um tipo de educação, você está atingindo os outros. Afinal, não existe argumento mais absurdo (minto, nos últimos tempos temos nos esforçado em ressuscitar outros argumentos até mesmo mais absurdos) do que dizer que quem cuida da educação de sua criança é apenas a família. Bobagem, a educação acontece em vários círculos que se misturam. Adão e Eva foram a primeira e última família que podia confundir seu ambiente doméstico com toda sociedade e vimos o que aconteceu com os dois primeiros filhos. Eles também foram educados apenas pela família.

Então desconfie: os maiores interessados em levar um projeto que retira da criança sua proteção é… HH. Não sabe quem ele é? Leia Lolita, afinal é uma obra-prima.


#lolita #nabokov #escolasempartido #censura

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