O Gigante Enterrado: entre o romancista e o narrador

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Henry James protestava contra a tentativa de categorizar as novelas como sendo divididas entre as “de personagem” e as “de situações” questionando o que seriam personagens senão a forma como agem em uma determinada situação. Ele entendia uma novela como um produto em que todas suas partes se encaixam e combinam, quase que organicamente, para um mesmo fim. Assim, ele não veria a diferença mesmo entre esses dois elementos, o que não quer dizer que ele não via diferença entre formas de criar uma novela.

A percepção desta distinção fica mais clara na troca de correspondência entre James e Robert Louis Stevenson. Na prática, não poderia haver dois escritores tão distintos: Henry James fechado em sua torre de marfim, preocupado em mostrar o drama psicológico e em cujas histórias em quase nada precisava acontecer e Stevenson, o viajante, narrador e personagem de aventuras que se espalhavam pelas páginas dos livros com agilidade e precisão. Esse contraste entre dois escritores é algo comum e que se repete até hoje. Muitas vezes, escritores como James são realistas, parecem procurar criar encenações dramáticas, enquanto escritores como Stevenson se esbaldam no terreno do fantástico, fortemente influenciados pelas narrativas orais.

Mas de vez em quando, ou muitas vezes, essa distinção um tanto quanto arbitrária se quebra. Temos autores tipicamente narradores, como Neil Gaiman, tentando encontrar o ritmo correto para novelas e com isso, invadindo a realidade com personagens do universo mítico, como acontece em Deuses Americanos e noutra vezes temos um romancista invadindo o mundo da fantasia, como acontece com Kazuo Ishiguro em O Gigante Enterrado.

Não é como se a fantasia não apresente potencial dramático, pelo contrário, sua forte descendência da mitologia permite que seus personagens funcionem muito bem desta forma. Mas a fantasia está acostumada a se misturar com as narrativas tradicionais. Existem contos que parecem sonhar em abandonarem a escrita e retornarem para a oralidade. São aspectos que encontramos em Neil Gaiman, mas também em autores como Stevenson, Kipling, T.H.White ou Lewis Carroll. Suas obras pedem para serem lidas e ajudarem no combate à insônia. Não é o caso do Gigante de Ishiguro. O ritmo é deliberado demais, vagaroso, consciente demais dos personagens da história. Ou como James apontaria, estão interligados com a situação de toda a novela.

Na Inglaterra medieval, depois da morte do Rei Arthur, um casal idoso decide viajar para encontrar o filho. Axl e Beatrice enfrentam problemas com a memória, causada por uma névoa misteriosa que também afeta outras pessoas. Na viagem, encontram um barqueiro, que lhes conta sobre uma ilha para onde casais vão, mas apenas depois de provarem que realmente se amam. Caso contrário, o barqueiro levará apenas um deles. Depois encontram um cavaleiro saxão (Wistan), um jovem que foi mordido por ogro (na verdade, um dragão) e por isso não pode mais permanecer na sua aldeia(Edwin) e o cavaleiro Gawain, agora envelhecido e de certa forma, mas parecido com o Rei Pelinore do Rei que foi e um dia será de T.H.White, pois é nobre, mas cômico.

Utilizar os personagens arturianos para uma novela é algo comum e simples, devido ao potencial trágico que eles carregam, mas Ishiguro utiliza o ambiente arthuriano apenas como pano de fundo. O importante é a alegoria do conflito entre Bretões e Saxões, que era o pano de fundo dos conflitos da Távola redonda, e representa os conflitos entre povos que dividem a mesma terra e uma memória de guerras: vale para israelenses e palestinos, vale para os coreanos, vale até para nós e o momento político atual. O drama humano de Axl e Beatrice realça esse conflito: da mesma forma que as diferenças culturas são toleradas por que o conflito é esquecido: as rusgas de um longo relacionamento de um casal também se beneficia de esquecimentos. A alegoria continua na figura do barqueiro e o ato de atravessar o rio: é o mesmo que morrer. Beatrice sofre de uma doença e aos poucos vai se enfraquecendo, enquanto Axl continua lutando por salvá-la. É o tom nobre de Axl que governa o livro e suas melhores passagens, mesmo quando ele não é o narrador da história.

O ritmo lento e cuidadoso é quase senil. É o tempo que é um rio vagaroso, que todas as personagens têm de enfrentar, mesmo os mais jovens.  Axl e Beatrice viajam a pé e quando ganham velocidade, por exemplo, em uma cena em que são atacados por pixies em um rio, são obrigados a abandonar a rota. São exemplos perfeitos do que James queria dizer: a identidade dos personagens se conhece de acordo com as características da narrativa. Em uma novela tipicamente baseada em ação, algo como Dan Brown (daquelas que se diz que é uma leitura fácil de virar páginas), os eventos parecem acontecer com os personagens e eles precisam reagir. Nas obras de James e de Ishiguro, os personagens acontecem com os eventos. Se a história fosse ambientada em uma estação espacial do século XXX, Axl e Beatrice funcionariam da mesma maneira.

Gawain, Wistan e Edwin são menos interessantes, parecem ter saído das narrativas tradicionais que inspiraram a ambientação de Ishiguro, a fim de cumprirem apenas sua função narrativa. Na verdade, a mistura entre os gêneros nem sempre funciona bem: como romancista Ishiguro está bem, mas como narrador temos momentos em que a cadeia de acontecimentos parece forçada: as memórias que retornam por conta da névoa são convenientes e estranhas já que o tema do livro é o esquecimento, os encontros do casal ou as habilidades físicas dos cavaleiros acontecem e surgem sem nenhuma surpresa ou explicação. Elas têm que acontecer por que a história precisa delas. Em uma narrativa tradicional, isso é comum: o lobo mal está exatamente na floresta no momento em que Chapeuzinho, uma menininha, está passando com o lanche para avozinha enviada pela própria mãe. Mas o segredo da narração está em fazer do ritmo um aliado para criar a ilusão de que esses acontecimentos são exatamente os únicos possíveis. Um novelista precisa de outro ritmo, para expor os personagens e assim Ishiguro denuncia esses pequenos deslizes.

Temos um dragão na história, mas o duelo final com Querig é um evento anticlimático. Afinal, é sobre cavaleiros e não sobre o casal que é o mais interessante na história e Querig é propositadamente um ser patético, denunciando a melancolia da obra. Por ser uma alegoria, Ishiguro não acredita nem precisa acreditar na magia e sim no fim da mesma. Mas não é o fim dramático do Crepúsculo Celta de Yeats. Não que pudesse ser diferente: é um livro para ter suas páginas passadas vagarosamente e não para criar um filme de ação, provocando o leitor para certos pontos e passando batido por outros. Sem dúvida, James ficaria satisfeito com a consistência que Ishiguro encontrou para O Gigante Enterrado.


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