O uso de Easter Eggs literários no Justiceiro

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Uma piscadela. Era assim que Umberto Eco definia a referência que apenas o fã de uma determinada obra literária reconheceria quando o autor usava em outra obra literária. Era um gesto de cumplicidade. Esses já eram os “easter eggs” para o acadêmico na época, ou seja, a prática não é uma novidade. A diferença é que a tecnologia digital permitiu uma ampliação deste uso, não somente por conta da possibilidade de inclusão de mais cenas e detalhes, mas também por que é bem mais simples pausar e ampliar cenas para que possam ser vasculhadas até o usuário encontrar os mais camuflados easter eggs em um filme. A prática é de tal forma exagerada, que a maioria das inclusões tem pouca influência na narrativa em si (ou em qualquer outro aspecto relevante) e funciona mais como uma forma de fan service.

Por isso é tão interessante ver na série do Justiceiro da Netflix o uso das referências literárias. Ainda que, em muitos aspectos, a cultura literária não combine exatamente com o background dos personagens (ou com a imagem dos mariners e o tipo de literatura que geralmente é relacionada com eles), em um nível simbólicos, elas se encaixam perfeitamente na construção do personagem e da narrativa.

Nós temos Herman Melville, F.Scott Fitzgerald, Oscar Wilde, Alfred Tennyson e Kipling sendo lidos pelos Mariners (apesar de Frank Castle afirmar em determinado momento que é um leitor lento, algo que não condiz com o tipo de leitura que ele pratica).

Algumas vezes, a obra citada servirá para indicar algum evento que está para acontecer na história: Billy Russo cita versos do poema Charge of the Light Brigade e Frank indica conhecer o poema e logo depois, eles recebem ordens para partir para uma missão que ambos consideram suicida e ainda assim devem obedecer sem questionamento. O resultado é diferente, mas o poema de Tennyson era uma homenagem aos soldados que morreram durante um conflito no século XIX, exatamente por que se sentiram obrigados a cumprir ordens, mesmo quando havia ficado óbvio que os superiores do exército inglês haviam confundido as informações sobre o inimigo ao darem as ordens. Foi um ataque suicida e causou grande impacto na época e ficou marcado como símbolo da disciplina militar da cavalaria inglesa.

Outra forma de antecipar eventos da história é o uso do Retrato de Dorian Gray de Oscar Wilde, que é lido por Billy Russo. Não é apenas indicar que o personagem, apesar da aparência, é podre por dentro, como acontece com Dorian. É bom lembrar que o retrato de Dorian vai se modificando durante o livro até apresentar uma imagem deformada que representa a corrupção do personagem. O que acontece invariavelmente no final da série, quando Frank deforma o rosto de Billy.

Mas talvez a mais significativa referência e mais obscura aconteça na cena final do mariner e terrorista Lewis na cozinha do hotel. Ele prepara a bomba para explodir e começa a recitar alguns versos. Pela referência ao Afeganistão e pela linguagem usada, algum espectador pode pensar que é alguma citação moderna de alguma canção criada pelos soldados americanos. Mas não, trata-se de um poema de Rudyard Kipling, “The Young British soldier.” Kipling foi um grande poeta e seus poemas militares usavam a linguagem coloquial para conseguir o efeito musical necessário que ele procurava.

Mas o que um soldado inglês tem a ver com isso? Um dos truques foi citar a estrofe final, que menciona o Afeganistão, causando ainda mais a impressão de se tratar de um verso contemporâneo. Mas não, Kipling falava de outra guerra naquele país. De fato, o império Britânico promoveu três invasões naquele país, sem muito sucesso, durante os séculos XIX e XX. Ou seja, o Afeganistão é um país que há dois séculos vive em sofrendo intervenções dos principais impérios mundiais. A transposição temporal se torna completa: os Estados Unidos, depois da II Guerra Mundial, assumiu a posição de Império que era ocupada pela Grã-Bretanha. A crítica final fica por conta do tema do poema, apesar do seu Jingoísmo, os poemas militares de Kipling são focados nos soldados. Kipling mostra o sofrimento a bravura deles. Ou seja, o poema ainda toca em dos temas da série, que é o tratamento que os veteranos recebem. Não é atoa, que um veterano inglês da atual guerra no Afeganistão, usou para protestar esse mesmo poema. De certa forma, é uma vindicação ao talento de Kipling, hoje quase apenas lembrado por ser o criador do Mowgli.

Justiceiro é uma série irregular, com altos e baixos, mas teve muito cuidado em tentar criar o aspecto psicológico de seus personagens, para que nada pareça gratuito demais em cena. Por isso, é uma série com tão poucos “easter eggs” gratuitos, mas com essas ótimas piscadelas, que não estão em cena por um mero acaso.

João Camilo de Oliveira Torres – Quem quiser me ouvir falando de séries e filmes baseados em HQs, basta clicar aqui e acompanhar o X-POILERS!


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