Dark: Twin Peaks e a síndrome de abstinência

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Março de 2017. Era uma época de felicidade pura, uma época em que as séries de televisão preenchiam o cotidiano (não, nada de fuga da realidade, a loucura do Quixote lhe fazia confrontar a realidade, não fugir dela), que havia uma satisfação inocente com True Detective, Fargo, Legion e as outras produções que pareciam ter feito a arte narrativa na televisão ter chegado ao seu auge. Mas, como se o espírito de Kierkegaard estivesse sempre a postos para nos lembrar da angústia da existência, Twin Peaks: o retorno aconteceu.

Desde então, é impossível não nutrir um sentimento de insatisfação diante das novas séries, algumas muito boas como The handmaid’s Tale, Mindhunter ou Alias Grace. Falta algo que foi roubado pela terceira temporada da obra de David Lynch. Em 1989, ele criou a referência para a produção de séries de televisão de qualidade. Em 2017, ele avisou que havia uma nova referência e como toda mudança no campo artístico, será um processo longo e cheio de passos largos para frente e para trás. Mas neste caminhar vacilante, algumas séries interessantes ainda são produzidas e sorte daqueles que não assistiram Twin Peaks e ainda vivem felizes e inocentes em 2017.

Dark, produzida na Alemanha e disponível no NETFLIX, é uma dessas séries. Curiosamente, a série pretende fingir que é Twin Peaks: um crime em uma cidadezinha pequena desperta uma investigação e traços sobrenaturais marcam a investigação, enquanto os personagens se revelam cheio de segredos e a investigação se torna apenas uma desculpa para dar dinâmica à narrativa. Assim como Twin Peaks, o tema é o tempo, mas ao contrário de Twin Peaks a explicação é iminentemente científica e não fantástica. Não é uma história sobre a origem do bem e do mal e ao contrário de Twin Peaks, em que o tempo é algo maleável, que permite a criação de novas possiblidade, o tempo em Dark é algo implacável. É possível a interação entre futuro, presente a passado, mas essas interações não provocam mudanças na linha temporal, ao contrário, são fundamentais para sua permanência. O humor negro é substituído pela tragédia grega na medida em que os personagens tentam reverter o destino. Dark finge ser algo diferente, um dos muitos produtos que examinam as consequências da viagem no tempo.

Mas é apenas um truque, no fim das contas, nada mais Twin Peaks do que uma série sobre o tempo. São bons atores, uma boa produção, com boa cinematografia (a trilha sonora não tem aquela sutileza da trilha de Angelo Badalamenti, mas faz um jogo interessante se compararmos com onda nostálgica de Strange Things, já que parte da trama é em 1986) e cheia de momentos de tensão. Não tem aquele brilho metalinguístico que é o algo mais de David Lynch e alguns personagens são bem menos desenvolvidos do que outros, mas funciona bem…

…se eu ainda estivesse em Março de 2017…

João Camilo de Oliveira Torres – Quem quiser me ouvir falando de séries e filmes baseados em HQs, basta clicar aqui e acompanhar o X-POILERS!


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