Medo e horror nos contos e histórias

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Uma das críticas mais comuns sobre as adaptações dos contos de fadas produzidas por Walt Disney é a tentativa de deixar os contos mais palatáveis ou açucarados, contrastando com os detalhes, muitas vezes mais macabros ou grotescos nos contos originais. Deixando de lado a estranha preocupação com um conto original de obras da tradição oral e que essa mudança foi um processo iniciado muito antes, quando os contos de fadas passaram a ser direcionados primariamente para o público infantil, considero que na verdade, as obras da Disney acrescentavam elementos assustadores, mais sofisticados, fruto da influência do expressionismo alemão, aos contos. Pensem em Malévola e seu castelo sombrio, substituindo uma cômica e ranzinza fada velha e a transformação da Rainha Má na Bruxa, coisa que passa desapercebida no conto. Na verdade, uma das minhas irmãs, Ludmila, diz que até Dumbo era assustador.

A existência de coisas assustadoras em contos de fadas não deve ser surpresa para ninguém, afinal há um amplo bestiário de seres fantásticos nestes contos: gigantes, bruxas, dragões, trolls e muito mais, coisa que herdaram dos contos e das histórias da mitologia. Não podemos esquecer que Ulisses enfrentava as sereias e os canibais ciclopes em suas viagens, que a Bíblia tem outros tantos episódios horríveis, alguns protagonizados pelo próprio Javé, e que o Enkidu começa como um monstro bestial antes de se tornar o companheiro inseparável de Gilgamesh.

Há uma diferença, na maioria destas histórias o objetivo não é causar medo, mas a superação deste obstáculo. Em uma história de horror, o final feliz, que nos ensina como enfrentar e derrotar um monstro, nem sempre é necessário. Até mesmo as histórias em que o protagonista enfrenta a Morte ou o Diabo, a tom é geralmente cômico, como se para enfrentá-los fosse necessário um sorriso debochado. O principal objetivo dos contos de horror é causar medo e essa sensação pode ser o suficiente. Há uma famosa história americana, uma lenda urbana, que conta sobre dois namorados que ouvem no rádio do carro sobre um perigoso assassino que fugiu da cadeia e que tem um gancho em lugar da mão. Assustados decidem voltar para casa, a menina entra em segurança, mas vê, quando namorado vai embora, o gancho pendurado na maçaneta da porta. O conto termina aí, sem resolução, pois já cumpriu sua função de provocar a tensão.

O medo é um sentimento importante, necessário, que sentimos desde crianças. Seria algo sem sentido evitar que as crianças tivessem contato com as histórias de horror, esperando um “amadurecimento”. Amadurecer é algo causado pela própria experiência, ou a que vivemos ou a que vivenciamos por meio da arte.

No livro A Coisa, o palhaço Pennywise, diz que faz das crianças seus alvos preferidos pela forma como reagem ao medo. Aparentemente, a imaginação infantil, ainda livre das amarras da vida adulta, produziria um “medo” mais delicioso. São palavras de Stephen King, mas não deixam de ser um pouco verdadeiras. A vida adulta nos ensinou a lidar com nossas ansiedades de maneira concreta: uma conta a ser paga, motoristas bêbados, governo golpista, a morte dos filhos, o envelhecimento… Esses mesmos medos ou ansiedades encontram em crianças respostas que variam em forma e intensidade, mesmo por que ainda não aprendemos a solucionar esses problemas quando somos crianças. Se um adulto reage a esses problemas sem se sentir paralisado é por que ouviu ou leu muitas histórias quando criança e sabe como lidar com o medo.

Não é que um adulto não possa se sentir assustado com uma boa história, pois felizmente temos aquela poderosa nostalgia do tempo em que fomos crianças e ainda reagíamos às situações de maneira mais intuitiva e emotiva. Todos os beijos podem ser o primeiro beijo e todos os monstros podem ser um monstro da época em que éramos pequenos demais para nos defendermos. Existem, é claro, grandes filmes e livros que lidam com medos adultos, como Frankenstein, O Bebê de Rosemary ou Babadook (todos os três têm a ver com a maternidade/paternidade), mas até mesmo gênero slasher, das franquias Sexta-Feira 13 ou A Hora do Pesadelo, tem como alvo o público adolescente que tem um medo básico: a insegurança do início da atividade sexual (afinal, essa maturidade é uma das características do mundo adulto). Por incrível que pareça, a nudez gratuita que havia nestes filmes era na verdade parte de uma mensagem moralista americana, procurando controlar a libido dos jovens americanos.

Não é de se espantar que encontremos histórias nos contos de fadas tradicionais que sejam puramente de horror e não somente uma história que coloca o monstro como um adversário para um herói/heroína. São histórias que encontram ressonância até hoje.

O que é João e Maria senão um conto de horror. Além da terrível realidade da fome, dos pais abandonando filhos, da bruxa ainda temos o toque final, que é a casa feita de doces, anos antes da consciência geral sobre a higiene bucal e o mal causado pelo excesso de açúcar. Talvez não exista algo mais terrível do que o medo de ser abandonado pelos pais e este conto (e todos similares) explora isso com toda simplicidade e eficiência dos contos tradicionais. Até os nomes dos personagens são nomes comuns, o que facilita a identificação de toda criança e mesmo que nunca sentiu fome, consegue relacionar as duas coisas como algo terrível, em que até mesmo a natureza (na figura do bosque e dos pássaros que comem os farelos) parece conspirar contra os protagonistas.

Temos o Barba-Azul, que funciona tão bem que o termo é usado para descrever um tipo de serial-killer. Contos de fadas sempre exploraram o medo da mudança causada pelo casamento: maridos que são monstros é algo muito comum e até as inúmeras esposas do Barba-azul parece estar em ressonância com a maior mortalidade feminina no período, causada pela insegurança dos partos. Barba-azul busca na curiosidade feminina presente na história de Erro e Psique. Não deixa de ser irônico que as irmãs de Psique sugerem que ela se casou com um Barba-azul. Ainda que as relações com o casamento tenham se modificado, a sociedade ainda encontra milhares de situações simulares, em que os Barba-azul modernos apresentam diferentes níveis de monstruosidade que não precisa ser o assassinato: traição e violência doméstica.

Outro possível serial-killer é o Flautista de Hamelin, conto baseado em um acontecimento real, mas cuja “verdadeira” história foi perdida há muito tempo. Encontramos alguns detalhes fantásticos que enriquecem o conto, como os ratos e o menino manco que sobrevive no final, mas a verdade é que a história é sobre um homem que matou várias crianças de uma cidade e nunca foi capturado. Talvez, quando ouvirmos mais uma vez a história de um massacre realizado em uma escola e quisermos entender como se sentem os pais que viram vários jovens sendo exterminados de uma só vez, possamos ouvir os acordes de uma flauta. É bem possível que esse conto nos diga também como a solução para um problema pode ser a causa de um problema maior, para que possamos coibir esses eventos no futuro.

E a riqueza da história da Chapeuzinho? É bem provável que o medo dos lobos tenha originado essa história, afinal é o animal selvagem mais próximo do homem, não só geograficamente, mas também por ser a cara do nosso melhor amigo. Mas o conto cresceu com o tempo, o lobo pode ser um pedófilo, notadamente disfarçado e bem-vestido como um membro da família e o conto pode ser até sobre o medo da morte, como fez Guimarães Rosa no Fita verde no cabelo.

Mesmo fora dos contos orais, temos ótimos contos de fadas de horror. Andersen tem duas que merecem ser lembradas: A Sombra, que é um conto influenciado pelo romantismo alemão de Hoffman (que nos deu aquele terrível Rei Rato de muitas cabeças do Quebra-nozes) e A Dama de Gelo (não o conto piegas que deu origem ao filme da Disney), que é um conto até mesmo cruel sobre o medo do inverno e do frio em regiões montanhosas da Europa. Nenhuma dessas histórias tem um herói triunfando em um momento catártico no final, pois seu objetivo é apenas causar medo e mesmo derrotado (como acontece no Barba-Azul), o medo retornará.

Talvez seja essa a sabedoria que podemos encontrar nas intermináveis franquias de Hollywood: você sentirá medo novamente, então é bom ouvir e aprender a conviver com ele.


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