A Arte vai bem, nós é que vamos mal

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Talvez o aspecto menos surpreendente de toda a polêmica da exposição Queermuseu cancelada pelo Banco Santander tenha sido a atitude do banco. Quando essas entidades investem em grandes projetos culturais não é por uma crença inabalável na cultura, nos seus representantes e significados. É uma ação de marketing e a o patrulhamento do MBL estava causando dano à imagem do banco. Não vamos fingir surpresa ao descobrir que a época quase dourada de ver temas como a representatividade LGBT ganhando espaço em setores convencionais ainda existe. Isso passou, se antes o conservadorismo pegava mal e o discurso era a abertura de mercado causado pela inclusão e aceitação das minorias (Lembra daquele chavão de que o homossexual tinha mais recursos financeiros por não ter filhos,etc.?), agora ele pode ser despudorado.

Se isso não fosse verdade, o cancelamento da exposição teria sido tratado com luvas de pelica, ondas de clientes ligados ao movimento LGBT abandonariam o banco, mas não. Aconteceu apenas mais uma revolução no Facebook. Luis XVI ainda estaria vivo e enviando nudes, Marat trollando Robespierre e Danton debandando para o Whatsup se as redes sociais existissem ao invés das multidões enfurecidas no século XVIII.

O que aconteceu nos últimos anos foi que um grupo aproveitou o momento para coibir toda e qualquer proposta identificada com o campo de esquerda, que independente da lógica bizarra da dicotomia causada pela limitação do vocabulário, em geral incluí o diálogo com minorias. Não é importante se o governo Dilma na prática representava esse campo ou não, o que importa é que a sua existência e também a existência de instituições comprometidas com o equilíbrio democrático e não com o desmantelamento do poder executivo, coibia o radicalismo de ambos os lados.  Para a tomada do poder foi necessário enfraquecer o poder executivo e aliar-se com o radicalismo conservador e as consequências disto que chamamos de golpe está longe de ter fim.

Como Arte é campo de troca de ideias e mesmo quando expressando ideais conservadores, apresenta necessariamente uma possibilidade que rompe com o real, abrindo caminho para novas perspectivas, nada mais natural que tenha sofrido ataques desses grupos que em situação normal seriam abafados pelas alas moderadas de ambos os lados. Não há interesse do radicalismo conservador criar alternativas, ampliar perspectivas ou permitir a diversidade. Este mesmo grupo tem ou dá pouco valor à produção artística (veja os ataques constantes que sofria a Lei Rouanet e os programas governamentais de compras de livros, que a despeito de precisarem de melhorias, eram atacados por motivos ideológicos e não por uma verdadeira tentativa de aprimoramento e correção de problemas), mas, instintivamente, sabe do potencial destas manifestações.

A literatura especificamente sofre mais agudamente deste mal. O que aconteceu com o livro “Enquanto o Sono não vem” de José Mauro Brant no Espírito Santo e também com “Dois Chapéus vermelhinhos” que foi recusado em uma escola belo-horizontina por que o Saci seria coisa do capeta é algo semelhante. Os grupos que se manifestaram contra as duas obras não encontram resistência para expressar suas ideias, facilitando a retirada das obras e os grupos que poderiam defender as obras estão presos na bolha. Em geral a mesma bolha que celebra a tacanhice do Juiz Sérgio Moro e as ferradas que leva do Lula como se o resultado daquela peleja fosse decidido na manha da raposa e na tolice do cão. A verdade é que perdeu-se a vergonha de ser ignorante.

O resultado são derrotas consecutivas. A porteira está aberta e será preciso um fato excepcional para reverter essa situação. Qualquer pessoa sensata sabe que o MBL não tem condição alguma de decidir e discutir sobre arte por que leva a discussão para o campo da propaganda política. Não será o Santander – um banco! – que mudará isso. Somos nós. Quando abandonarmos os textos imparciais – não podemos ser imparciais quando a cultura é atacada, mesmo se for uma exposição que possa ser acusada de mau gosto (como muitos destes moralistas vão com suas crianças assistir Game of Thrones nas noites de domingo, podemos dizer que o mau gosto impera ao lado da hipocrisia) e muito menos quando livros são recolhidos. Os famigerados stalinistas não estão no poder para serem uma ameaça real (e o fato deles terem sido incapazes de montar uma estrutura capaz de impedir a queda de Dilma mostra bem como o poder deles nunca foi tão forte assim), mas o grupo que está no poder é covarde demais para impedir os grupos conservadores de agirem. É preciso ser radical, por que o problema exige.

Também não é hora do discurso das prioridades. A saúde e a educação vão mal? A segurança? Evidente. Mas quantos desses problemas são causados pela ignorância. E o remédio para ignorância é a cultura? Durante o Fórum Semeando Letras, na abertura, em Montes Claros ouvimos um prefeito falar da falta d’água. Não é questão de prioridade, como o poeta Aroldo Pereira disse em resposta a indagação da plateia. É o mesmo problema. Falta água, falta livros. Não é coincidência.


#santander #queermuseu #josémaurobrant

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