Enquanto o sono não vem e os dragões dos contos de fadas

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Em um mundo feito de citações apócrifas de Clarice Lispector e Voltaire, não chega ser uma surpresa encontrar casualmente citações de alguns autores que são bem menos famosos, como é G.K.Chesterton. Chamá-lo de grande autor pode parecer uma ironia pobre (considerando que seus duelos verbais com pessoas como George Bernard Shaw e H.G.Wells ficaram famosos, seria uma ironia muito pobre), mas não há melhor maneira de se referir a um autor que talvez tenha sido autor dos melhores contos de detetive (Padre Brown pode não ter sido o melhor personagem entre os detetives mais famosos, mas os contos de Chesterton exploram a fórmula tradicional com muito mais talento que Conan Doyle, além de adicionarem certa subversão ao gênero), de ensaios, novelas (O homem que foi Quinta-feira é uma indicação de leitura sempre bem-vinda), biografias (a biografia do Dickens é uma das responsáveis pela reavaliação do status do autor no século XX) e acima de tudo, grande construtor de frases de efeito.

Um das sentenças que mais vezes surgem é uma que ele utilizou em um ensaio sobre contos de fadas. Chesterton acreditava em contos de fadas, mas não exatamente em fadas. Sim, fé era uma questão importante para Chesterton, mas ele se aproximava dos contos de fadas com a sabedoria de quem distingue a verdade da realidade. Ele disse:

“Contos de fada não dizem às crianças que dragões existem. Crianças já sabem que dragões existem. Contos de fada dizem às crianças que dragões podem ser mortos.”

Para Chesterton bruxas, madrastas, reis, ogros, lobos maus, duendes e dragões não precisam existir, mas precisam ser verdadeiros como assassinato, roubo, rapto, incesto, abandono, fome e seus agentes.

É claro, contos de fada não são feitos apenas para crianças (essa ideia nasceu de uma Europa que sentiu vergonha da fantasia, mas observando o consumo do Harry Potter – uma fantasia ainda muito realista – que essa vergonha já passou), mas o uso da linguagem simples, mas com um simbolismo elaborado e personagens arquetípicas permite que a narrativa e as metáforas sejam absorvidas por um ouvinte de qualquer idade. Escutar essas fantasias faz parte daquela tradição ancestral que contaminou toda humanidade durante alguma noite de insônia de uma tribo reunida ao redor de uma fogueira. Assim, eles funcionam como veículo perfeito para transmitir situações e ensinamentos que os livros didáticos não conseguem transmitir para essa mesma faixa etária.

Pensem como é bem mais fácil entender o perigo representado pelos estranhos quando ouvimos as histórias de Rumpelstiltskin, da Moura Torta, da Chapeuzinho Vermelho? Mesmo monstros terríveis – assassinos seriais (antes mesmo de a expressão ter sido criada, e Jack, o estripador conseguir assustar os adultos) como o Barba-azul ou o Flautista de Hamelin se tornam familiares e podem ser compreendidos e enfrentados por qualquer um.  Você não precisa passar fome para saber que é algo terrível, por que um conto chamado João e Maria iguala a fome a ser abandonado pelos pais.

Por isso a presença dos tabus em tantos contos de fadas. É assustador ver contos de fadas serem atacados por lidarem com um tabu, quando eles servem exatamente para permitir que esses tabus sejam compreensíveis.

Há um conto, que passou por gerações e culturas, que lida com o incesto.

A versão mais famosa é a de Charles Perrault, A Pele de Asno, até que uma polêmica feita para enfraquecer programas sociais que foram conquistas dos últimos anos, explodiu e fez da versão de José Mauro Brant, A triste história de Eredegalda, do livro Enquanto o sono não vem, que foi recolhido pelo MEC.

De alguma forma, o moralismo conservador que domina o Brasil e que sempre se recusou e continua a ser recusar a ler, viu a palavra triste no título, leu a história de uma filha que é torturada pelo pai e morre no final, como algo que edificava o incesto. Como se os personagens fossem modelos a ser seguido. Essa confusão pode ser entendida (mas é igualmente ignorante) com o Lolita de Nabokov. Não por essa história.

Os moralistas se apoiaram no tema (de natureza sexual) para decidir que o texto era impróprio para crianças. Mas a história não é de forma alguma sexual. Como não é A Bela Adormecida, Chapeuzinho Vermelho ou Branca de Neve.

Incesto não devia fazer parte da vida de uma criança. Assim como morte e guerra. Mas fazem. Na verdade, são as crianças as vítimas maiores do incesto. A maior diferença entre a literatura infantil e a adulta não é o tema, mas a linguagem. Lolita não é feito para crianças, não por ter um conteúdo sexual, que não há, mas por usar uma linguagem que demanda uma experiência de leitura anterior. Nabokov é um autor para autores, que carrega toda a literatura que ele conhecia nas suas obras e faz uso de técnicas, como o narrador não confiável, que exige muito de seu leitor. O conto de Brant traz um rei, uma torre e cavaleiros. Uma linguagem que é aceitável para crianças dentro da tradição dos contos de fadas.

Se você for esperar uma criança se tornar adulta para introduzir o tema, será tarde demais. O trauma já terá acontecido. O que você consegue impedindo o contato com este conto e este tema é deixar de oferecer para uma criança – vítima ou testemunha – uma forma de identificar e se expressar sobre esse assunto.

Não estou falando da professora – ela é bem vítima deste sistema, já que não está preparada para guiar seus alunos pela leitura de temas difíceis – mas estamos falando do Brasil destes últimos quatro anos e de um direito – a leitura – sendo enterrado em um armário escuro debaixo de uma escada qualquer.

Isso já era golpe antes. Mas felizmente…

“Contos de fada não dizem às crianças que dragões existem. Crianças já sabem que dragões existem. Contos de fada dizem às crianças que dragões podem ser mortos.”


#contosdefadas #chesterton #lolita #eredegalda

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