João e Maria de Neil Gaiman

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Neil Gaiman gosta de recontar contos tradicionais. Fez isso várias vezes. No Sandman, por exemplo, no arco A Cada de Bonecas, ele reconta a história da chapeuzinho vermelho, quando uma das personagens está em um hotel alugado por uma convenção de colecionadores (serial-killers, ou seja colecionadores de mortes) e é avisada por Fiddleer’s Green (na verdade,  G.K.Chesterton que sabia que os contos de fadas servem para nos ensinar a vencer os monstros e no hotel a personagem encontraria um serial-killer que é o lobo mau) para tomar cuidado.

A versão de Gaiman é sombria (um pouco similar com a versão de Perrault, mesmo se Fiddler’s Green tenha sugerido algo no sentido contrário) e violenta, como pede a história principal sobre serial-killers. Não há muitas mudanças, como ele fez no reconto da história dos Três Bodes (que analisamos aqui), quando ele “descobre” que a história era uma versão do famoso enigma de Édipo. Existem muitos outros exemplos na obra de Gaiman, mas vamos falar aqui da versão do conto João e Maria.

Como conto de fadas, há algo de diferente neste conto, já que é um conto sobre pessoas pobres. O tema da fome aparece em alguns outros contos e em certas versões até fazem do herói ou heroína príncipes ou princesas no final, mas em geral, no máximo há um enriquecimento da personagem para que ele possa escapar da fome e ter o final feliz, mas que também nos ajuda a lembrar (ou esquecer) que no ano que vem o inverno será rigoroso novamente.

Quase não há magia. A história é bem próxima da realidade e a bruxa nunca faz um feitiço sequer. É bom lembrar que contos de fadas não são sempre sobre mágica, mas sobe coisas fantásticas e é claro, uma casa feita de guloseimas é algo fantástico. Acho que é o principal motivo deste conto ser tão bem lembrando, afinal que Bruxa tem uma moradia tão espetacular? Somente ela e a Baba Yaga.

Neil Gaiman não altera muito a história. Na verdade, bem pouco. Há o que podemos chamar de “Neilgaimanismos”, como a preocupação com as crianças não irem à escola e seguida pela constatação que eles não percebiam isso como um problema, pois estavam satisfeitos com a vida campestre. Há também a pequena piada com os nomes comuns do protagonistas, que faz com que todo mundo possa dizer “Conheço um João e Maria” e acredite na história. Há também um reforço ao realismo da história com a explicação sobre a guerra como causa da fome.

Como Gaiman acredita na tradição que ele resgata, a bruxa é muito uma velhinha simpática e uma representante de um passado pré-cristão. Talvez, a coisa que mais pareça terrível seja a sugestão de que Maria seria ensinada a ser uma nova bruxa, ou seja, temos toda uma linhagem de bruxas canibais preparando suas armadilhas na floresta. Vamos engolir em seco, quando a bruxa cheia de praticidade promete para Maria um ossinho do irmão para roer.

Ela não é verdadeiramente assustadora, é até demonstra certa simpatia, pois sabe que pais abandonarem filhos na floresta é algo errado. Não é algo sem sentido partindo de uma bruxa canibal. Um monstro agir como monstro está fazendo o que é esperado dele. Faz parte da ordem do mundo. Ordem que os pais de João e Maria não obedecem.

Para Gaiman, o verdadeiro horror não exatamente a fome e a frieza da mãe, contrastando com a imagem da mãe capaz de todos os sacrifícios pelos filhos.  O vilão poderia também ser o pai, mas Gaiman deve querer ser um bom pai por demais para não poupar o pai da história como também fizeram os Irmãos Grimm e tornou-se uma tradição colocar a culpa dessas situações que destroem a família na mãe/madrasta. E verdade seja dita, esse é o horror que permanece, independente da fome, o abandono dos inocentes pela mãe/família é algo que é compreendido até os dias de hoje. O canibalismo e a fome são terríveis causam revoltam, mas é como temer o monstro de Frankstein por causa das cicatrizes ou o Drácula pelos dentes pontudos. São coisas que causa impacto, mas não capturaria a atenção de tantas gerações que ouviram a história se fossem somente esses os elementos que nos incomodassem.

As bruxas? Essas você só não pode convidar para jantar.


#nailgaiman #joãoemaria #contosdefadas

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