Deuses Americanos de Neil Gaiman

Capas

Com a série de TV, eu decidi reler “Deuses Americanos” de Neil Gaiman, livro que li apenas quando foi lançado aqui no Brasil e que tinha algumas poucas lembranças: um pouco de prazer, a existência de uma ideia interessante e um final confuso e um pouco decepcionante.

Evidente que são lembranças bem vagas e mostram que o livro não havia causado um grande impacto, o que é curioso, considerando que Neil Gaiman é um dos autores vivos que acompanho e faço questão de ler suas obras, desde “Sandman”.

A primeira coisa que percebi  é que a leitura continua prazerosa, pois Neil Gaiman é um bom escritor. Há sempre algum destaque, alguma linha que sugere uma ideia mágica e uma imaginação rica. Muitas vezes, a obra de Neil Gaiman é interessante não pelo o que ele escreve (obrigado a definir um curso de ação quando está escrevendo uma novela), mas pelas possibilidades que sugere. Criar possibilidades é algo especial, Herman Melville chega a sugerir  que essa também era uma característica da grandeza de Shakespeare: o que ele deixou de escrever.

Mas em seguida surge certa decepção: Shadow, o protagonista da história não é um personagem interessante. Seu ceticismo, sua conversão, seu drama não me interessam, por que ele é genérico demais. Antes de ser um novelista, Gaiman é um narrador e narradores se dão bem melhor com personagens que são arquétipos, por isso parte do sucesso de Sandman e os perpétuos, que são personagens que personificam arquétipos e isso faz dos deuses os personagens mais interessantes de “Deuses Americanos”. Parece que Gaiman precisa deles já prontos, pois seu talento maior está em fazer fluir a narrativa, está em saber propor o “era uma vez”. Se fosse um RPG, ele seria um bom mestre e deixaria a cargo dos jogadores a criação dos protagonistas.

Quando falamos que Gaiman é um narrador, não quero transformá-lo em um contador de histórias de uma tribo primitiva, por mais que ele adorasse a ideia. Sua voz narrativa certamente busca evocar esse contador de histórias, mas ele é um escritor. Na literatura inglesa há uma linhagem de autores que são esses narradores e Gaiman é claramente influenciado por eles: Roberto Louis Stevenson, G.K.Chesterton, George McDonald, T.H.White, Lewis Carroll e podemos considerar uma boa parte da obra de Kipling também. Não é sem motivo que esses autores tenham se dedicado à fantasia (ou ao fantástico), que é um gênero feito para narradores. Esse é o narrador que Walter Benjamin sentia falta no ensaio “O narrador”, ao pensar em Leskov e no domínio do romance do século XIX, realista e psicológico.

E como Neil Gaiman é um bom contador de histórias. É outro elemento presente em “Sandman” e que permitiu a Neil Gaiman contar histórias, mesmo criando uma série de capítulos, basicamente uma grande novela, de uma trama longa sobre a luta de Sandman contra o destino, que funciona como uma moldura para centenas de outras tramas, no melhor estilo Sheherazade. Mas “Deuses Americanos” é uma novela moderna. Depois do sucesso nos quadrinhos, Neil Gaiman tornou-se popular e uma “marca” a ser explorada. Seus contos antigos e seus primeiros roteiros para quadrinhos foram republicados e ele passou a ter espaço para escrever as novelas que desejasse. Aconteceu assim “Belas Maldições”, a parceria mais do que bem sucedida com Terry Prachett e “Os filhos de Anansi”, que é uma espécie de primo de “Deuses Americanos”. São obras para o público jovem/adulto, bem diferente das obras recentes como “O garoto do cemitério” ou “Coraline”, que são obras para o público infantil.

“Deuses Americanos” é uma tentativa de encaixe no mercado de fantasia americano, mercado cujo rei é Stephen King. Horror é apenas uma faceta da fantasia e King apenas trabalha com uma fórmula de best-seller que muitos outros autores utilizam. Gaiman também. Essa novela americana tem uma tradição diferente da fantasia inglesa, menos elegante, mais pulp e vulgar. Não quero dizer que é ruim, mas é a mesma diferença entre o bárbaro mundo de Robert E.Howard e o seu Conan e o mundo ordeiro recheado de elfos de Tolkien.

A mistura das duas tradições fica muitas vezes evidente: é como se Gaiman não estivesse à vontade e tateasse no escuro tentando encontrar qual a quantidade ideal de profanidades ou sexo seria o suficiente para ambientar a história nos Estados Unidos. É um pouco a própria história do livro: um deus do velho mundo tentando se ajustar ao novo mundo. Não estou dizendo que Gaiman é um puritano que coloca em uma garrafa moedinhas todas as vezes que solta um “fuck you” e tampa os olhos e fica vermelho como um tomate ao clicar acidentalmente em um link e abrir um site pornográfico. É simplesmente uma linguagem diferente, especialmente quando conhecemos outros momentos na obra de Gaiman em que o tema foi apresentado.

Mas não é somente aí que fica evidente: nós podemos dividir o livro em três partes. A primeira (a mais interessante) que é quase um road movie: com o encontro entre Shadow e Wednesday e as suas primeiras viagens, em que Gaiman trabalha com um dos mitos modernos que são as rodovias e o que encontramos em um país tão amplo como a América. A segunda parte. que é a parte em Lakeside, em que uma história paralela sobre assassinatos é introduzida e uma série de personagens bem pouco interessantes aparecem e somem (até ressurgirem em um posfácio, tão relevantes que são). É a pior parte do livro, arrastada e um problema muito comum nestes best-sellers que é a necessidade de protelar a resolução. E a terceira parte, que é a resolução com a guerra dos deuses propriamente dita.

Stephen King tem finais ruins em muitos dos seus livros, como se não conseguisse manter a intensidade que constrói durante o romance. São anti-épicos. Isso acontece em “Deuses Americanos” também. Pode ser um problema do formato, mas também é algo que acompanha Neil Gaiman. Sua imaginação é tão fértil, que raramente consegue entregar no final algo que desperte tanto interesse quanto o desenvolvimento das suas ideias. É como se não desejasse colocar um fim e se rebelasse contra isso, transformando suas sagas (até “Sandman” foi assim) em uma versão do fim do mundo ao estilo de T.S.Eliot: com um gemido e não com um estrondo. É como se Gaiman sempre sugerisse uma continuidade (ou como é característico em sua obra, um renascimento) e isso acontece com “Deuses Americanos” também. Não estou falando da prática de criar uma situação para uma sequência, estou falando de uma espécie de fé estética de Gaiman: as histórias nunca terminam e voltam acontecer pela primeira vez. É parte daquela fé no contador de história tradicional que repete a mesma trama vária vezes como se fosse algo novo e essa trama um dia surge na voz de outro contador em outro local e tempo.

Mas uma novela, especialmente um best-seller, precisa de uma conclusão que procura dar uma satisfação catártica para o leitor, sem deixar o final em branco para que a nossa dúvida e imaginação faça surgir uma nova história. É o conflito de tradições novamente, já que um narrador pode prescindir de conclusões definitivas.

Talvez a série de TV consiga corrigir isso, pois a ideia, dos deuses vivendo entre nós e como nós – ideia que ele já havia utilizado em “Sandman” – é muito atraente para não interessar o leitor ou a audiência. É o que estava guardado na minha lembrança e que depois desta releitura vai continuar guardado. Neil Gaiman sabia que tinha uma grande ideia e sabe como fazer o “era uma vez”. Isso não mudou.

 

Sobre a série de TV, confira as minhas colunas no sctdo.com. A primeira é esta aqui.


#neilgaiman #deusesamericanos #sandman #stephenking

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