O Castelo de Otranto de Horace Walpole

 

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Nem todas as obras que deram origem a um gênero literário têm a sorte, ou azar, de permanecerem registradas na história como aconteceu com O Castelo de Otranto de Horace Walpole. A sorte vem do fato que as inovações do autor, algumas bem ingênuas, ficaram preservadas. O azar é a realização que outros autores, mais seguros em seguir o caminho aberto por estas inovações, foram capazes de utilizá-las com mais perícia e em muitos casos, mais talento.

Quando falamos em inovações, não estamos falando em coisas necessariamente novas, ou inéditas. Não é exatamente assim que a literatura funciona. Estamos falando da criatividade em apropriar-se de tema, linguagem, técnica ou enredo para um novo contexto ou combiná-las de forma original. O que muitas chamam de modernizar. Por exemplo, a forma pela qual Cervantes buscou na novela de cavalaria, elementos que combinados com a sátira menipeia e pelo realismo que criaram o Dom Quixote e a novela “moderna”.

Walpole é, por exemplo, um dos primeiros a utilizar elementos Shakespearianos para escrever novelas, algo que contribuiria muito para a vitalidade e fama do bardo no século XIX e nos séculos seguintes. O Castelo de Otranto faz óbvias misturas das Comédias Shakespearianas como o constante jogo de erros das interpretações dos personagens (confusões de identidade entre Matilda e Isabela, que, assim como em Romeu e Julieta, levarão a história até um desfecho trágico) e o diálogo humoroso dos servos (especialmente de Bianca) e das tragédias: o fantasma lembra Hamlet, o ambicioso Manfredo lembra MacBeth e ambas as obras utilizam o sobrenatural como elemento da narrativa. É o “All the World’s  a stage” sendo colocado em prática.

Dickens ou Melville fizeram melhor e ai está o lado negativo para Walpole. Os personagens de O Castelo de Otranto são pouco críveis e interessantes. Não estou falando da linguagem que utilizam (que Walpole tenta defender no prefácio da primeira edição), mas sim pelas ações dos personagens. Exceto por Manfredo e sua ambição constante e pelo frade Jerônimo e sua função moral, os demais personagens são exageradamente nobres ou crédulos (não por acreditarem no sobrenatural, mas pelas reações em relação aos outros personagens). Hipólita, Matilda, Teodoro ou Isabela são como comida sem tempero e fria.

Ainda assim, ao contrário de Shakespeare, que faz com que as características de seus personagens sejam responsáveis pelo destino, com Manfredo nada disso é explorado: seu medo e superstição vão e vem e a sua tragédia é causada por um erro grotesco e não por sua ambição.  Bianca é outro personagem que funciona, exatamente por ser um personagem cômico.

O uso do prefácio, no qual Walpole diz que a obra é a tradução de um pergaminho é outro recurso metalinguístico cujo uso se tornara comum, desde os Cantos de Ossian de MacPherson. Estratégias semelhantes seriam usadas por Borges, com maior eficiência. Mas ainda assim, talvez seja o melhor momento da obra, mostrando a já existente preocupação dos autores em delimitar o que seria ficção e realidade naquele novo gênero, o romance em prosa.

Desta forma, o livro quase deixa de lado o que o fez famoso: a referência ao mistério sobrenatural para mostrar uma trama cheia de reviravoltas, em extrema velocidade. As informações são apresentadas em sucessão, o morto, Conrado, some completamente da trama, e Manfredo sucumbe à chatice da esposa Hipólita, como acontece em dramalhões de folhetim.

De certa maneira, O Castelo de Otranto é uma curiosidade sobrenatural, cheia de teias de aranha, que retém algum poder para nos assombrar vez ou outra, durante a noite, ou seja, um personagem do próprio gênero que criou.


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