O Saci-Pererê: resultado de um inquérito

A influência de um grande escritor na cultura de um país em geral é representada pelos livros e personagens que ele criou, talvez por alguma figura de linguagem. Quando pensamos em Monteiro Lobato, imediatamente relacionamos sua imagem com a nossa literatura infantil. Alguns, motivados pelo recente sucesso da indústria petrolífera brasileira, talvez se lembrem de sua defesa de um petróleo nacional. Os artistas vão pensar na sua contribuição crítica ao movimento modernista. Mas a tradição popular e a pesquisa folclórica se lembrarão do Saci-Pererê.

Até a primeira década do século XX, a imagem popular do Saci-Pererê pouco tinha em comum com a imagem que hoje guardamos. Ou melhor, era apenas parte da particularidade de um ser meio índio, meio português e meio africano que insistia em surgir e causar espantos sem jamais mostrar sua cara.

Originalmente, a imagem do Saci-Pererê esta ligada a uma imagem pouco positiva, que misturava seres noturnos, pesadelos e diabinhos. Monteiro Lobato não pensava assim. Queria que a nossa cultura se valorizasse, sem carregar consigo os moldes negativos herdados da visão do colonizador e por isso propôs um projeto pouco usual para o Estado de São Paulo, em 1917: Um Inquérito, com a colaboração espontânea dos leitores que enviariam os relatos sobre o Saci-Pererê, ou o “insigne perneta”, como o chamava. Sob o título de “Mitologia Brasílica”, nas páginas da edição vespertina do jornal, apelidada de “Estadinho”, lançou o desafio. E mais, convocava os leitores para valorizarem os aspectos alegres e sábios da criaturazinha, um demônio genuinamente nacional, sui-generis, e que serviria tanto para adultos quanto para crianças. Era mais uma das profecias de Monteiro Lobato, pois até então, pouco ou quase nenhum referência era feita ao ser, segundo nos informa o pesquisador Câmara Cascudo.

E o resultado do inquérito foi um livro repleto de depoimentos, onde a imagem do Saci-Pererê surgia como um negrinho, como um caboclo, como um índio e que por vezes até mesmo com chifres, pés de bode, cheiro de enxofre e forma de passarinho, o Matinta Pereira. A riqueza de relatos, que vieram de vários estados brasileiros, atestava para Monteiro Lobato que o Saci, era sim, um símbolo nacional, enraizado na nossa cultura popular, que contrapunha a imagem da carnificina européia com um espírito brincalhão: era o ano da Primeira Guerra Mundial.

O livro foi publicado em 1918, com o título de O Saci Pererê: Resultado de um Inquérito, assinado por “Um Demonólogo Amador”. Monteiro Lobato comentava com o amigo Godofredo Rangel a ironia da sua estréia editorial: com uma obra repleta de textos de terceiros e sem o próprio nome. Na edição de suas obras completas que organizou, Lobato, não incluiu o Saci. Mas o personagem tornou-se seu companheiro constante, pois afinal é o ser do nosso folclore que mais apareceu nas histórias do Sítio do Pica-pau Amarelo. E para o brasileiro, os aspectos assustadores do Saci foram perdidos, tornou-se um companheiro, para sempre relacionado com o barrete vermelho, a pele negra, a perna única e o cachimbo. Conseguir deixar a marca na história popular de uma nação não é um feito para poucos.

O texto fac-símile do O Saci Pererê: Resultado de um Inquérito, até então uma raridade editorial, foi republicado em 1998 e distribuído para bibliotecas pelo Projeto Memória e mais tarde pela Editora Globo.

Publicado originalmente na coluna Leitor Errante em http://www.aletria.com.br


#saci #monteirolobato #folclore

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s