Cinderela

Um conto tradicional não tem autores nem uma forma final e definitiva. É o uso de uma determinada sociedade, em um determinado momento, que contribuiu para a escolha de quais elementos serão considerados “canônicos”. Estes mesmos elementos podem ser descartados. Mas alguns fatores estão presentes nas diferentes versões e no esqueleto da história de tal forma que parecem indicar uma forma original. Vejamos o conto da Cinderela: uma jovem se apresenta em um baile e ao ir embora perde sua sapatilha, que é usada para sua posterior identificação.

A primeira fonte do Cinderela é uma história “real”, no sentido em que seu registro não pretendia ser uma fábula, mas um registro histórico. O historiador grego Estrabão, autor do “Geographia” cita a personagem Rhodopis:

“Contam uma história fabulosa, quando ela estava se banhando, uma águia roubou uma de suas sandálias da guarda de sua dama de companhia e levou-a até Memfis; e quando o rei administrava justiça em uma área aberta, a águia, quando voou por sobre sua cabeça, lançou a sandália no seu colo; e o rei, impressionado pela beleza da sandália e o inusitado do acontecido, mandou seus homens por todos os cantos da nação para encontrar a mulher a quem a sandália pertencia; e quando ela foi localizada na cidade de Naucratis, foi levada até Memfís, tornando-se esposa do rei, e quando morreu foi homenageada com a tumba acima mencionada.”[1]

Apesar do fato surpreendente, a história é realista. Não há ocorrências sobrenaturais e Rhodopis é uma personagem real, citada por Heródoto:

“CXXXIV — Micerino também legou à posteridade uma pirâmide. Embora bem menor que a de Quéops, é um notável monumento de base quadrada, de pedra da Etiópia até à metade, medindo cada uma das faces três pletros de largura. Alguns Gregos pretendem ter sido ela construída pela cortesã Rhodopis.”[2]

Heródoto faz também alusão à beleza incomparável de Rhodopis. Sabemos que os Contos de Fadas tiveram origens nas narrativas mitológicas, como é atestado por aquele que é considerado o marco inicial do conto de fadas: Eros de Psique de Apueleio, uma história onde surge um protótipo da vilã na figura de Vênus (a sogra) e uma heroína rebaixada, obrigada a prestar algumas tarefas que seriam impossíveis sem ajuda de agentes extraordinários. Em geral, são fontes pagãs no sentido tradicional da palavra, já que se distanciam dos centros urbanos e da corte romana e são apropriadas pela população campesina, em geral iletrada. O mesmo deu-se com diversos registros dos Anais históricos, como é o caso de Heródoto. É bom ressaltar que é um movimento de retorno, já que grande parte das fontes de Heródoto é oral.

O próximo registro da Cinderela, já apresenta elementos fantásticos. É uma história chinesa, registrada no século IX: Yeh-Shen. Diversos elementos são adicionados, como a madrasta má (na verdade, o pai de Yeh-Shen era polígamo), uma irmã e um baile. O auxílio mágico é realizado pelo espírito de um peixe, a quem Yeh-Shen alimentara quando vivo. O baile é um baile tradicional aonde jovens vão para formarem casais. A sandália é encontrada por um mercador, que apresenta ao rei. Ela é exposta e Yeh-Shen é presa ao tentar recuperá-la.

“Ela foi levado até o rei, que estava furioso, pois não podia acreditar que alguém usando tais trapos poderia possuir uma sandália de ouro. Quando examinou o rosto dela de perto, foi nocauteado pela beleza e percebeu que tinha o menor pé. O rei e seus homens voltaram com ela para casa e ela apresentou a outra sandália. Quando calçou as duas sandálias, seus trapos transformaram-se no lindo roupão e na capa que usará durante o festival. O rei percebeu que aquela era mulher para ele.”[3]

O final menciona que eventualmente a madrasta e a filha morreriam em um acidente. Seria necessário que a Europa saísse da idade média para encontrarmos o próximo registro, feito pelo Italiano Giambattista Basile no Pentamerone, uma das diversas obras inspiradas pelo Decamerão de Boccaccio. Nela, a heroína ganha o nome Cenerentola, pois é obrigada a tomar conta de uma lareira. Ela é uma princesa, que ao ter problemas com uma madrasta, acaba auxiliando a sua tutora a separar o pai e a segunda esposa. A tutora logo se torna também uma madrasta má (tendo várias filhas) e trata Cenerentola  com despeito. Ela é auxiliada por uma fada que vive na Sardenha e também frequenta um festival e nele perde sua sandália. O rei então convoca um banquete e Cenerentola  tem de estar presente com o pai e as irmãs. O rei se aproxima da moça, obrigando-a calçar a sandália, e descobre estar diante da jovem que o encantaram antes. No conto de Basile já estão presentes vários elementos tradicionais, mas é importante notar que,  de todas as versões aqui apresentada, o única que não apresenta certa mobilidade social. Cenerentola é nobre, apenas injustiçada.

A mobilidade social é elemento presente tanto de Charles Perrault quanto dos irmãos Grimm. São as duas narrativas mais conhecidas e a versão atual, muito baseada no filme de Walt Disney, é baseado nelas. Em Perrault, existe certa crítica ao mundo aristocrático. Perrault introduz a fada-madrinha, o auxilio de animais encantados e a proibição da Meia-noite. O sapatinho torna-se de cristal. São dois bailes e uma notável diferença está no final:

“Ela foi levada até o jovem príncipe, vestida como estava. Ele pensou que era mais charmosa do que antes, e, alguns dias depois, casou-se com ela. Cinderela, que não era menos boa do que bela, deu moradia no palácio à suas duas irmãs, que no mesmo dia, uniu-as a dois grandes lordes da corte.”[4]

Ou seja, em Perrault, Cinderela une beleza à ética. (O nome Cinderela é um apelido carinhoso que a irmã mais nova escolheu em contraste ao mais desrespeitoso apelido que a mais velha cunhou).

Já com os Grimms, que criavam as versões dos contos que recolhiam, utilizando-se de fontes anteriores e não somente o registro oral, trazem de volta elementos de Basile. Cinderela é auxiliada pela mãe, não por uma fada madrinha e faz seus pedidos no túmulo materno. Nos Grimms os papéis femininos são radicais: ou representam uma autoridade benevolente, como as mães, ou o descontrole maligno como as bruxas e madrastas.  No caso do Grimm, o conflito de classes (a ascensão social de Cinderela ao disputar o príncipe com as irmãs, que chegam a mutilar os pés para tentarem usar o sapato) é realçado. Perrault escreveu para uma aristocracia que era alvo da crítica iluminista, os Grimms para uma burguesia em ascensão e com finalidade pedagógica. O conto termina com uma punição as irmãs:

“Quando foi celebrado o casamento da jovem com o príncipe, as duas malvadas irmãs compareceram, dispostas a adularem Cinderela, a fim de gozarem de sua amizade e tirarem vantagem disso. Quando o casal de noivos entrou na igreja, a irmã mais velha se colocou à sua direita e a mais moça à sua esquerda, e os pombos arrancaram um olho de cada uma delas. Quando os noivos voltaram do altar, a irmã mais velha ficou à esquerda e a mais moça à direita, e os pombos arrancaram outro olho de cada uma. E, assim, as duas irmãs foram castigadas por sua perversidade, ficando cegas o resto da vida.”[5]

Com a versão cinematográfica de Walt Disney, encontramos novamente elementos introduzidos por Perrault, misturados com a Madrasta e as Irmãs de Grimm. Os elementos suavizados para a audiência infantil e a dualidade entre a pureza de Cinderela e a maldade da Madrasta realçada pela presença de um felino (Lúcifer) que rivaliza com os animais que auxiliam Cinderela. Nos desenhos de Disney, o casamento é uma aspiração, uma forma de alterar uma situação que oprime as personagens principais. Até mesmo as versões modernas, constantemente consideradas como sendo versões mais feministas, tendem a repetir essa tendência. Bela quer abandonar a vila em que vive, Jasmine quer se livrar do casamento imposto pelo pai e Rapunzel quer deixar a torre. Ao contrário de muitos contos de fadas tradicionais, que apresentam o casamento como fonte de apreensão e insegurança para a noiva, o casamento no universo Disney é uma versão idealizada e romântica. Dá-se o mesmo com Cinderela, mesmo que estruturalmente não exista mudança significativa dos elementos anteriores.

Tanto Disney quanto os Irmãs Grimm estão falando para um público que valoriza a formação de uma família funcional e no casamento o meio em que uma jovem pode abandonar a adolescência e dar início a esta família. Elementos como as madrastas e irmãs funcionavam para a aristocracia como representação dos muitos casamentos do período e do problema de heranças. Isso é verdadeiro nas versões atuais: Cinderela fica pobre e reduzida à uma serviçal por que outra família passou a ter o direito sobre a propriedade do pai. Ela só poderá escapar casando-se e constituindo outra família distante do lar.

Enfim, o conto tradicional não precisa ser fiel à sua origem, até mesmo porque essa origem é costumeiramente obscura. É exatamente essa fragilidade, que todos podem se apropriar e alterar elementos do conto, que é a força do conto. Os elementos que sobrevivem, neste caso um sapatinho perdido e mudança da situação da protagonista, são tão atrativos que acabam sendo preservados pela “crítica popular”, que é o bom senso. Sobrevivem por serem os melhores, mais relevantes e artísticos elementos do conto. É o que aconteceu com Rhodopis, ou melhor, Cinderela.

[1] – Tradução nossa. Fonte: ESTRABÃO. Geography of Strabo. published in Vol. VIII of the Loeb Classical Library edition, 1932 in http://penelope.uchicago.edu/Thayer/E/Roman/Texts/Strabo/17A3*.html#ref178

[2] – Fonte: HERÓDOTO. História. Clássicos Jackson W. M. Jackson Inc.,Rio, 1950. Tradução de J.Brito Broca.

[3] – Tradução nossa. Fonte: Aai-Ling Louis: Philomel Books, Nova York, 1982 in http://www.unc.edu/~rwilkers/resource-china.htm

[4] – Tradução nossa: Fonte: http://www.pitt.edu/~dash/perrault06.html

[5] – Fonte: GRIMM, Jacob & Wilhelm. Contos de Fadas. Trad: David Jardim Júnior. Editora Itatiaia, Belo Horizonte, 2000. 596 pgs.

Galeria de Imagens Cinderela


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