Chico Traíra

 

CABEÇALHO

Meu pai e meus tios frequentavam um boteco em Lima Duarte, cujo dono era conhecido como Chico Traíra. Como o nome indica, ele gostava de pescar, o que muitas vezes pode implicar mais em contar anedotas sobre pescarias do que fisgar qualquer coisa. Invariavelmente, Chico era o personagem central de suas anedotas.

Se ainda me recordo bem, uma delas era a seguinte:

Fui pescar em uma noite dessas e levei melado para passar na isca, para que o peixe não escapasse. Quando cheguei na beira do rio, coloquei a isca no anzol, lambuzei de melado e joguei bem longe. O que eu não vi é que eu joguei tão forte, que a isca caiu na outra margem.

De repente eu senti um puxão. E outro. E aí eu comecei a puxar a linha. E era forte demais. Eu puxava e ela puxava de volta. A linha estava retinha, de tanta força que o bicho fazia. Mas fui puxando, puxando, puxando, até que saiu da água um tamanduá com a isca cheia de formigas na boca abraçando dois peixes desse tamanho.

O que eu fiz? Dei para ele o pote de melado e fiquei com os peixes.

É claro que grande parte da graça da anedota é a própria figura do Chico Traíra, que não posso reproduzir aqui com exatidão, somente produzo um registro. Apenas utilizando-se da arte, que um narrador é capaz de causar a impressão da presença do Chico Traíra, pois pode provocar uma emoção nos ouvintes similares ao que Chico provocava no boteco. Eles (os contadores) jamais serão o Chico, mas não é preciso ser. Nem é preciso que tenham tido qualquer contato com ele. A arte emula o original, sem precisar de proximidade. Por isso, a narração oral de um livro para uma plateia não é o mesmo que a leitura deste livro, nem jamais será, não importa o quão próximo o objeto livro esteja ou não.

Essa é a diferença essencial do registro de contos e a narração destes contos por um contador de histórias. É a mesma diferença quando lemos os contos de Perrault, que sim, têm origem na tradição oral, mas foram transformados por um autor que era um acadêmico e os registros dos Irmãos Grimm ou, por exemplo, de Câmara Cascudo. Não havia com Perrault a real intenção de registrar os contos de uma tradição oral e sim apresenta-los para um público erudito, inspirado pela já marcante presença destes contos nos salões da nobreza francesa.

Não é que os irmãos Grimm não tenham alterado as histórias que recolheram com suas pesquisas. Como foi o caso da história de Chico Traíra, quando escreveram, foram obrigados a abandonar parte da tradição oral entre as linhas do texto. Mas são pesquisadores, que registram histórias repetidas e até mesmo incoerentes, para preservar o material que encontraram.

No século XX, essa interferência do pesquisador reduziu e a tecnologia possibilitou novas formas de registro, como a gravação, mas a importância da dedicação de quem “caça” as histórias continua a mesma. Daí a importância desses registros e para nós brasileiros do trabalho de Câmara Cascudo. Ele registrou não só as histórias, material que serve até os dias de hoje de acervo para narradores, mas também manifestações tradicionais. Elas são tão importantes quanto as histórias, pois são referências para que o artista possa ter material a fim de tentar evocar a presença daquele mundo ao qual pertenceu Chico Traíra e tantos outros chicos.


 

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