A fina arte de escrever sem palavras

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Paul Valéry, poeta e crítico francês do início do século XX, ao explicar as qualidades da poesia de Baudelaire, disse que esta tinha três principais características que evidenciavam o talento do poeta: a textual, a musical e a visual. Os poemas de Baudelaire eram belos se lidos, se ouvidos e se imaginados, pois o poeta francês criava seus versos utilizando o próprio conhecimento que tinha de pintura e combinação de cores. Que a poesia, ou a literatura tem laços com o mundo oral, já sabemos. Para não deixar um hábito de lado, lembraremos-nos de Jorge Luís Borges que dizia que a Poesia insistia em recordar o passado oral. Também devemos nos lembrar daqueles versos iniciais da Ilíada:

“Canta, ó Deusa, do Peleio Aquiles, a ira tenaz que lutosa aos gregos”…

Mas e a imagem?

É possível dizer que imaginar é visualizar. O grande narrador provoca-nos imagens, que devemos utilizar para preencher o espaço entre as palavras – seja esse espaço o silêncio, seja esse espaço a mera ausência de letras entre uma palavra e outra. A descrição detalhada, minuciosa, que o realismo literário advoga, seria apenas uma curiosa lista de supermercado, uma enciclopédia, se na medida certa, ou palavra certa de Flaubert, não houvesse um momento de pausa para Madame Bovary. É claro que a literatura se casou com a pintura e outras artes visuais. Afinal, Arte gera Arte – é a Arte a verdadeira musa.

Algumas vezes os pintores nos forneceram as imagens dos escritores, que influenciarão a leitura daquela obra. Dante e a sua Comédia inspiraram diversos ilustradores, mas a sua própria imagem – que é a imagem de um homem que foi do Inferno ao Céu – está constantemente evocando a forma como foi retratado por pintores como Botticelli. O mais sublime dos poetas vai estar sempre marcado pelo Inferno e não pelo Paraíso. Seu rosto sério, taciturno, duro. Quase nos faz esquecer que a poesia de Dante é tudo menos bruta e soturna. Seu texto buscava sempre o topo celestial, sua ambição era quase herética: seus poemas eram poemas de um amor divino. Uma filosofia intocável.  Botticelli, que também ilustrou a Divina Comédia, foi um dos que mudou tudo isso. Mas não foi o único: William Blake também ilustrou a Divina Comédia, mas são as ilustrações de Gustave Doré, que vão se destacar acima de todas outras. De fato, Doré é quase parte da história da literatura, como qualquer outro escritor.

Durante o século XIX, Doré ilustrou com brilho quase todas grandes obras, O Dom Quixote, A Bíblia, A Divina Comédia, Paraíso Perdido, Contos de Andersen e poemas variados como O Corvo de Edgar Allan Poe. Doré tem um concorrente: Edmundo Dulac. Dulac é outro estilo, seus desenhos são cheios de cores e fantasia, em contraste com o preto e branco e as sombras de Doré. Não sem estranhar, Dulac deixou sua marca em toda imaginação infantil, ilustrou Alice, Andersen, as 1001 Noites, e muitos outros. Junto com John Bauer, definiu um estilo que chegaria até o cinema e os quadrinhos (que, claro, são histórias ilustradas) até os dias de hoje. Basta olhar o ilustrador Charles Vess que ilustrou entre outros o livro de Neil Gaiman: Stardust. Existem outros estilos, como Harry Clarke e seu Patinho Feio ou Kay Nielsen e seu O Imperador e o Rouxinol e seus quadros das 1001 Noites.

A fantasia é claro tem atraído grandes ilustradores, assim como os livros infantis. Queremos lembrar que não só crianças gostam de ilustrações, adultos também. Desde das ilustrações de John Tiennel para Alice, diversos autores deixaram sua marca na obra de Lewis Carroll (ele mesmo um fotografo de talento). Mas a histórias de Tiennel é especial: ele e Carroll se desentenderam diversas vezes durante a publicação do livro. Mas quando Tiennel descobriu um erro de impressão que prejudicaria uma das imagens e comunicou o fato para Carroll, o autor não teve dúvidas, custeando de seu próprio bolso, recolheu as obras defeituosas (que eram poucas, pois era uma edição limitada) e pagou pela sua reedição. Ainda assim Tiennel definiu a Alice, assim como Manoel Victor Filho definiu o Sítio do Pica-Pau Amarelo e  William Denslow definiu o Mágico de Oz.

Falamos de revistas em quadrinhos e William Blake. O poeta romântico era um ilustrador de talento e ilustrou diversos livros de outros autores como O Paraíso Perdido e A Divina Comédia. Mas também fazia questão de que seus livros viessem com suas ilustrações, para que, segundo ele, o texto fosse compreendido. Exigia que as edições de seus poemas fossem sempre acompanhadas pelas imagens que produzia, o que o prejudicou: era visto como irascível e louco, além do preço extra que acarretava tais exigências. Anos mais tarde, seu talento foi novamente reconhecido por grupos como os Pré-Rafaelistas, que incluíam entre seus “membros” outro poeta-ilustrador, Dante Gabriel Rossetti, e seus poemas e suas imagens, vivem até hoje, ainda que nem sempre como desejasse autor: em conjunto.

Blake e Rossetti não são os únicos autores ilustradores. Victor Hugo desenhava, arriscou-se também Kafka e é claro, o grande Da Vinci também demonstrou considerável talento como autor e o múltiplo Jean Cocteau, que além de tudo, foi grande cineasta.

Algumas vezes grandes autores inspiram obras que não têm intenção de serem impressas com o texto. Shakespeare é prolífico nessa área. Admiro especialmente a Drowned Ophelia (Ofélia afogada, baseada na personagem de Hamlet) de John Waterhouse. A mesma cena foi ilustrada por diversos outros autores. Waterhouse também se destaca na ilustração do poema La Belle Dame Sans Merci de John Keats. Outra obra que inspirou diversos outros artistas. Arthur Rackham, que desenhou Alice, deixou algumas belas ilustrações de Shakespeare, especialmente baseadas no Sonhos de uma Noite de Verão e Romeu e Julieta, que inspiraram diversos artistas como Frank Dicksee.

Ilustrar poemas não é fácil. Além de Doré, podemos destacar Harry Clarke e a ilustração do Rhyme of Ancient Mariner de Colerdige ou Jessie Marion King para Prometheus Unbound de Shelley. Mas seu vou terminar lembrando que a ilustração para literatura continua influenciando a imaginação dos leitores. Mesmo com o cinema, ou melhor, com ajuda do cinema, já que a computação gráfica é uma forma de ilustração, ou ainda de maneira bem tradicional, se é que a palavra tradicional pode ser aplicada aos filmes de Tim Burton.


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