A bruxa vem aí

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Arte: James Schultz

Anteriormente, falamos do medo quando citamos o conto da Chapeuzinho Vermelho, mas a verdade é que a capacidade de causar medo (ou nos fazer acreditar no medo) é algo muito comum nos contos de fadas. Afinal, como G.K.Chesterton sugere, os contos de fadas não foram feitos para acreditarmos em dragões, mas sim para acreditarmos que os dragões podem ser vencidos. Por isso, o uso de um vilão como uma Bruxa é algo importante.

Originalmente, as bruxas eram caracterizadas pela estranheza e repulsa: eram deformadas, velhas ou estrangeiras. O melhor exemplo talvez seja a Moura Torta, conto que teve origem na península ibérica. Pode-se discutir muito o valor de Walt Disney e as suas adaptações para o cinema de contos de fada, mas em minha opinião, ele fez algo certeiro a criar para aos seus dois primeiros filmes bruxas como vilãs.

Primeiro no filme da Branca de Neve. Na história original, a rainha apenas se disfarçava de velha para enganar a princesa. Mas Disney torna o conto mais aterrorizante com a metamorfose da Rainha em Bruxa. Visualmente, é a cena mais memorável do filme. E é certamente mais terrível ver a rainha abdicar da beleza que possuía na sua obsessão pela beleza que não possuía.

Já para A Bela Adormecida, temos a Malévola. No conto de Perrault, quem amaldiçoa a princesa é uma fada velha e mal-humorada que logo some da trama. Na segunda parte do conto, a mãe do príncipe é uma improvável ogresa canibal. Os irmãos Grimm já haviam separado as duas partes, terminando a história da Bela Adormecida logo depois do beijo salvador. Não foi Walt Disney quem criou o final açucarado do conto, ele na verdade acrescenta elementos sombrios, influenciado pelo cinema alemão da época. Além disso, Malévola combina perfeitamente com uma das interpretações tradicionais do conto, que seria a passagem das estações. Enquanto as três fadinhas seriam as estações boas, ela seria o Inverno.

Essa relação entre fadas e bruxas está presente na origem das personagens, já na mitologia grega, com Medeia. Ela aparece na saga dos Argonautas, quando auxilia o herói Jasão a roubar o velocinio e depois a fugir do próprio pai (sim, ela também era uma princesa), chegando a fazer picadinho do corpo do irmão, para retardar o rei, que pausava para recolher os pedaços. Depois, ela já mãe, está em terra estrangeira (Medeia é relacionada com cultos da Hecate, uma religião rural e estrangeira para os Gregos, ou seja, quase o que chamaríamos de religião pagã), quando Jasão decide abandoná-la e casar com outra mulher. Na sua fúria, ela envia um presente envenenado para a rival (não era uma maça), ação que causaria a morte dos filhos. Ela é fada, ela é bruxa.

Essa transformação das religiões não oficiais também modificou as bruxas. Exemplo disto é a mais notável de todas elas: Baba Yaga. De divindade eslávica, ela tornou-se a mais representativa personagem do folclore local, cheia de ambiguidades, já que algumas vezes ajuda, ao invés de ameaçar. Baba Yaga é terrível: 2 metros de altura, dentes e unhas de aço e horrorosa. Apenas a nossa Cuca, que se originou do dragão de São Jorge em Portugal, consegue rivalizar com tal aparência. Voa em um pilão (nada de vassouras para ela) e tem uma casa que fica sobre pés de galinha (a casa mais notável de todas, tão impressionante somente a casa de doces da bruxa de João e Maria).

Personagens como Medeia, Cuca ou Baba Yaga não são feitas para serem derrotadas em definitivo. Elas voltam e é importante saber que elas estão na história para assustar. É preciso aprender a lidar com as bruxas, com o feio, velho e estranho, todos os dias como os heróis das histórias.

Galeria Baba Yaga.

Publicado originalmente na página da Cia Arreleque.


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