Eu e Herman Melville: Benito Cereno

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Não me lembro, e não creio que alguém possa se lembrar do exato momento no qual Herman Melville começou a fazer parte da nossa vida. Em algum ponto, Moby Dick era tão familiar quanto A Bela Adormecida ou o Saci. Vasculhando a memória encontro uma enciclopédia de animais que ao falar sobre cachalotes, cita a baleia branca que atacou a baleeira Essex. Havia um desenho animado da Hanna Barbera, em que dois meninos são auxiliados por uma idiotizada e amigável Moby Dick. Um livro sobre grandes naufrágios, mais uma vez citando o acidente com a Essex. Um livro sobre baleeiros. O filme com Gregory Peck de John Huston. O Tubarão de Peter Benchley e Steven Spielberg. As adaptações para quadrinhos de Bill Sienkiewicz e Will Eisner. Os poemas poucos valorizados. E durante uma viagem para Vitória, em um fim de semana, para o casamento de um amigo, Benito Cereno.

É claro que em meio a todos esses encontros, descobri a verdadeira Moby Dick e aquele personagem único, o capitão Ahab. Felizmente, a minha relação com Melville continuaria se ampliando para além de Moby Dick, muito graças ao impacto de Benito Cereno.

Benito Cereno começou devagar, como se desejasse provar que Melville deviaria ter se restringindo ao Moby Dick. Apenas quando Babo entrou em cena, a leitura tornou-se fácil. Ao contrário dos livros de aventuras atuais, Babo não faz com que você vire a página rapidamente e se esqueça de tudo quando o livro acaba. O que é curioso, pois Melville é um grande escritor de aventuras e foi por isso que a reavaliação crítica no início do século XX, o retirou do abismo para onde fora tragado pelo fracasso comercial de Moby Dick. Babo faz com que você fique na página, intrigado, curioso, encantado da mesma forma que ficamos encantados com Iago, o vilão perfeito que Shakespeare criou. Nisto ele tem muito em comum com Ahab, de fato, Babo poderia ser parte da tripulação do Pequod. Lá, ele encontraria a liberdade, ainda que tiranizada pela vingança do capitão.

O narrador subjetivo que Melville utiliza seria mais bem desenvolvido por autores posteriores. Neste sentido, A outra volta do parafuso de Henry James e O Horla de Maupassant são contos superiores, mas nenhum deles tem um personagem como Babo. De fato, a capacidade de Melville criar personagens é algo que me faz pensar que nenhum outro autor descobriu os segredos de Shakespeare tão bem.  Além disso, há o tema. Melville consegue representar toda a ambiguidade do conflito racial, coisa que os frios estudos psicológicos de James, por exemplo, deixam à parte. Por isso é mais fácil ser incomodado por Melville.

Quando a Rosana Mont’Alverne da Aletria me pediu sugestões de obras clássicas, Benito Cereno estava entre as primeiras obras que pensei. A reputação do autor, a ambiguidade do texto, os seus personagens e o tema sempre relevantes eram uma motivação enorme. Tentar defender os méritos – além dos óbvios estéticos – era um desafio, especialmente em um mundo transformado pela crítica de Chinua Achebe ao Coração das Trevas de Joseph Conrad. Se a primeira vez que li a obra, fui uma vítima da técnica narrativa, agora era uma questão de clarear o mapa e ligar os pontos entre Benito Cereno e seus pares, sem deixar  o horror – similar ao de Kutz de Conrad – diluir-se. Melville merecia isso.

No prefácio da obra publicada pela Aletria escrevi um texto que foi oportunamente batizado pela editora como “Convite à leitura”. Oportunamente por que poderia ser confundido com uma defesa. Não foi essa a intenção, pois Melville foi um autor muito mais talentoso do que eu e a sua leitura é o melhor argumento que podemos apresentar a favor de seus textos.

É apenas que, como Moby Dick, você tem de se permitir acreditar, com a mesma confiança que confia em um amigo que afirma que é seguro saltar mergulhar em uma cachoeira. Tudo acontece depois que a sua cabeça rompe a superfície da água e você pode ver o chão se aproximando e as bolhas de ar subindo para o alto.

Se você quiser conhecer Benito Cereno, publicado pela Aletria, basta clicar aqui.


#hermanmelville #benitocereno #aletria #conrad #mobydick #shakespeare


 

 

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