O soldadinho de Chumbo de Hans Christian Andersen

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A obra de Hans Christian Andersen é bem conhecida e seus melhores contos são presenças constantes na memória ocidental e de maneira geral “A pequena sereia”, “O imperador e o Rouxinol”, O patinho feio”, “A princesa e o grão de ervilha”, “Sapatinhos vermelhos”, “A roupa nova do rei” merecem o status que possuem, pois transmitem mais as virtudes do autor do que seus defeitos.

O meu favorito talvez seja “O soldadinho de chumbo”. Andersen nunca se preocupou, apesar do constante moralismo de suas obras, em seguir a regra dos finais felizes para os contos de fadas. Alguns dos seus contos são trágicos e até mesmo flertam com os contos de horror, influenciados por Hoffman. Vários finais são inconclusivos e este é o caso desta história, que a princípio é uma versão infantil para a tragédia de Romeu e Julieta: um soldadinho de chumbo de uma perna só se apaixona por uma dançarina feita de papel. Por tragédia, ele é lançando pela janela e após uma série percalços é devorado por um peixe, que é pescado, vendido para a mesma casa na qual morava (ecoando um dos eventos narrados por Heródoto: O Anel de Polícrates)  e reunido com a dançarina, apenas para ser lançando ao fogo. Mas a dançarina também é jogada na fogueira e os dois finalmente estão juntos, ainda que queimem até o final.

O grande mérito da história está na forma em que Anderson narra a história e apresenta o notável soldadinho. Ele é um herói, ainda que imóvel. Seus pensamentos e reações são a de um verdadeiro soldado: jamais sente medo senão o de jamais reencontrar a dançarina e em um determinado momento deixa de gritar por socorro pois tal coisa seria imprópria para um soldado de fardas.

Andersen muitas vezes é demasiadamente prolixo em divagações nos seus contos, desejando explicar as implicações morais dos eventos da história. Não é o caso deste conto, o soldadinho é lacônico e o ritmo é o mesmo das aventuras de Ulisses, já que o soldadinho se torna um dos muitos marinheiros da literatura.

O curioso é a ausência de magia, até mesmo quando se menciona a interferência do destino na forma do Gnomo que vive uma caixinha de brinquedo, é sugerido que tudo poderia ter sido causado pelo acaso. Os brinquedos não se movem, pouco interagem e tudo acontece quando os humanos não estão por perto, como no filme Toy Story. O fantástico é o soldadinho e é ele que gostaria de levar para casa.

Publicado pela primeira vez no Facebook da Cia.Arreleque

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