Elogio à tristeza

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Era uma vez uma jovem senhorita, filha de um rico comerciante que vivia em Londres. Tinha vários irmãos, que a chamavam de Bess e os bustos de mármore de Chaucer e Homero no quarto.

Aos dez anos de idade decidiu ser uma poetisa, numa época em que muitas poetisas ainda escondiam-se atrás de nomes masculinos. O pai, orgulhoso de sua caçula, deu-lhe livros e mais livros. Lia os clássicos e traduziu Ésquilo, libertando também seu Prometeu. Recitava Milton e seu Paraíso Perdido, e também deu voz à Lúcifer. Logo, os jornais publicavam os poemas da Senhorita Barrett.

Mas, sua saúde era frágil. Seu corpo não suportava o esforço prolongado e o pai resolveu protegê-la de todo perigo. E fez aquilo que era feito desde a idade medieval: deu a ela uma torre, com uma só saída, onde a luz do sol mal entrava. Ali, Bess cresceu e tornou-se a poetisa mais famosa da Inglaterra.

Um dia, recebeu uma carta que quebraria o encanto que a aprisionava. O senhor Browning queria vê-la, pois admirava seus poemas. Ele ambicionava dominar os poderes da linguagem e se tornar um grande poeta. Admirava, assim como ela, os poemas de John Donne e Percey Shelley. Elizabeth recebeu com receio tal admirador. Robert Browning era um homem vigoroso e dinâmico. Tão diferente dela.

Mas a sorte era que por ser exatamente o seu oposto, Robert Browning podia passar pelos muros da torre erguida pelo pai, feitos para retê-la e a ninguém mais. E, depois de resistir, pois convém a toda poetisa cercar-se de cuidados e a toda mulher de caprichos, apaixonou-se e foi amada. Fugiram numa tarde e casaram-se em segredo. Procuraram a Itália, que foi refúgio de Byron e Shelley. Lá, opera-se um milagre: a saúde de Elizabeth se restaura e o casal tem um filho. Enquanto juntos, trocam experiências e poemas: Elizabeth publica os Sonetos Portugueses, com influência de Camões e assim batizados por causa do apelido pelo qual Robert a chamava. Além disso, sua obra prima: Aurora Leigh, uma novela em versos que conta a história de uma poetisa. Elizabeth Barret t era admirada em todo mundo, tanto por sua obra tanto quanto por sua história pessoal. Era a princesa da época vitoriana. Ela e Browing foram felizes: se houve alguma história de felicidade entre dois poetas, foi a história de Elizabeth Barrett e Robert Browing.

Ela morreu depois de quinze anos. Robert continuou cuidando da publicação dos poemas de Elizabeth e dos seus. Entre eles, The Ring and the book, obra-prima da poesia vitoriana inglesa. Seu nome ganhou fama e a imortalidade que hoje ultrapassa a fama da esposa.

Não há moral nesta história ou reino do bem e do mal. Leibniz acreditou, tal como os gnósticos antes e William Blake depois dele, que a existência do mal era necessária para que compreendêssemos o valor do bem. Voltaire, que acreditava que deveríamos fazer o bem para eliminar o mal, criou o pessimismo para ironizar aquilo que acreditou ser otimismo. Bem e mal se anulam. Mas alegria e tristeza não. A história de Elizabeth e Robert é triste e alegre. Como deve ser toda história. O mesmo Leibniz contou uma história na qual descrevia a biblioteca do Paraíso e perguntava se nela deveriam existir vários volumes de uma obra perfeita, no caso a Eneida, ou apenas uma Eneida e diversas outras imperfeitas e grandes obras. Shelley responderia que todos os livros são apenas um único livro que escrevemos continuamente. Essa é a resposta para a questão de Leibniz.

Na minha estante, o volume com os poemas de Elizabeth e volume com os poemas de Robert, continuam lado a lado.

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