A ponte do troll: Neil Gaiman e Walt Disney

9531ceeb81ad746ed747b416e5b8db29

Arte de Dave Mckean

Os verdadeiros contos de fadas. Vez ou outra, encontramos reportagens e textos que prometem as verdadeiras versões dos contos de fadas. Invariavelmente, comparam as versões dos Irmãos Grimm e Perrault com os filmes de Walt Disney, em geral de maneira desfavorável ao cineasta norte-americano.

Por mais interessante que possa ser conhecer outras versões de contos de fadas, esse tipo de postagem me incomoda por dois motivos principais: a ideia de autenticidade e autoria desses contos originados da tradição oral.

Há quem diga que os contos representam uma cultura e não possuem autores. É verdade, mas toda obra de arte é uma representação do período em que foram produzidos e as obras tradicionais têm autores, são apenas desconhecidos.  E o que isso significa? Um texto de um escritor, passa pela imaginação e pela seleção de um só criador. O texto tradicional por vários. E por isso as poesias e histórias orais têm uma estrutura aparente simples, mas muito eficiente. Os símbolos, enredos, as metáforas, personagens são selecionados não por um só poder criativo, mas por vários. As histórias tradicionais não são as únicas histórias a adquirirem interpretações e significados com o tempo, mas são aquelas que melhor se aproveitam disso, pois é este o sistema que as sustenta. O registro de Perrault ou dos irmãos Grimm não é um ponto definitivo, de começo ou fim, apenas um marco em processo contínuo.

Quem conta ou reconta um conto de fada tradicional não está usurpando uma cultura, burlando uma autenticidade ou desrespeitando uma autoria. Quem conta uma história está meramente adicionando uma marca em uma linha temporal. Está adicionando possibilidades ao oferecer novos contextos, interpretações e quem sabe, até mesmo intuir uma verdade sobre um conto escondida nas entrelinhas dos narradores do passado.

Tomemos como exemplo o conto dos Três bodes e do troll debaixo da ponte. Neil Gaiman escreveu uma versão moderna da história, A ponte do Troll, publicada na coletânea Fumaça e Espelhos. Nela algumas diferenças: não são três bodes, mas um só personagem: o narrador da história. A ponte está nos arredores de uma cidade, meio que abandona em um subúrbio. O personagem encontra o Troll quando tem sete anos, depois quando tinha quinze anos e depois mais velho. O conto também mostra alguns eventos que aconteceram com o personagem entre os encontros e descreve os efeitos da intervenção humana na paisagem urbana. Isso por que o tempo é a grande descoberta de Gaiman para o conto.

Da forma que o conto era registrado mais tradicionalmente, pelos noruegueses Peter Christen Asbjørnsen e Jørgen Moe, era uma história meia acumulativa, que simplesmente repetia uma fórmula três vezes, mostrando uma progressão do mais fraco ao mais forte. Com Gaiman temos outra história, que não anula ou desmerece o conto tradicional: é a história sobre o homem, seu envelhecimento e suas experiências. É a mesma história de Édipo e da Esfinge, pois quando Édipo enfrenta a Esfinge o embate é um enigma e ao responder “o homem”, Édipo também está respondendo “Eu, pois eu sou um homem que engatinhava quando criança, que caminhava ereto jovem e que precisarei de uma bengala para me locomover, já velho e cego.”. É assim que o Monstro Esfinge é derrotado e é assim que o monstro Troll é derrotado.

Há sugestões de outras ideias no conto, mas não creio que nenhuma será tão importante quanto esta. O que Walt Disney ou Neil Gaiman fizeram é exatamente o que Grimm e Perrault fizeram: utilizaram o conto tradicional com a roupagem do tempo e da sociedade em que viveram e mantiveram a roda girando. Deixem fluir.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s