A história dos dois que sonharam

kiplingjames

Não é incomum que encontremos uma mesma história sendo contada por dois autores diferentes, ainda que não exista nenhuma indicação de que os dois textos estivessem conectados e apesar disso ainda nos admiramos como se fosse um milagre secreto. É uma das supertições dos leitores, como se provocasse prazer intuir que exista sim uma ordem no universo e que algumas vezes encontramos as manifestações de tal ordem.

Como nada tenho contra as supertições que pratico no isolamento da minha casa, quero crer que dois contos de dois autores nem tão dissociados assim é mais uma possível manifestação desse curioso evento. Ainda que possa existir algum ceticismo, temos agora uma boa desculpa para falar de dois contos e dois autores que merecem a leitura de qualquer leitor contemporâneo: Kipling e Henry James.

Os dois autores são contemporâneos e talvez isso seja o bastante que devemos saber sobre a bibliografia de ambos. James era um autor cético, muitas vezes acusado de envernizar seus personagens de forma que seus romances e contos funcionassem como um cenário para marionetes que eram manipulados por um distante e invisível titereiro. Não é injusto dizer que o realismo de James produziu obras inteligentes e elegantes, ainda que frias.

Kipling também era um autor realista, ainda que fizesse animais, objetos e plantas falarem. Sua preocupação estava em reproduzir corretamente o conhecimento histórico, geográfico e linguístico que acumulou tendo vivido e viajado por diversos mundos, uma vez que pertencia a mais de um mundo desde o nascimento. Ao contrário de James, seus contos são vívidos, dinâmicos e cheios de diversidade. Escreveu tanto fábulas para crianças com animais falantes quanto baladas sobre soldados e as guerras que conheceu.

O conto de James, Lição do mestre foi publicado em 1888 e o de Kipling, A mais bela história do mundo em 1891. Eram autores próximos, James admirava Kipling, mas não há razão para crer que ambos tivessem conhecimento da obra do outro, quando publicaram seus respectivos contos.

Paul Overt é um jovem escritor, que conhece um escritor renomado que admira, Henry St.George. Ambos conhecem uma jovem que admira o trabalho dos dois, Marian Fancourt. Durante seus encontros, Henry, mesmo sendo casado, adverte o jovem contra o casamento, pois isso destruiria o ímpeto criativo que ele necessitava para o sucesso. Paul, que estava apaixonado por Marian, viaja e quando retorna descobre que Henry enviuvara-se e casara-se com Marian. Ele acusa o “mestre” de ter plantando a dúvida apenas para ter o caminho livre para casar-se com a jovem. Henry nega tudo, professando a sua admiração pelo autor mais novo e afirmando que fizera aquilo para protegê-lo, ou mais precisamente, a carreira promissora de Paul. Como na maioria dos contos de James, o verniz nos mantém distante dos personagens e é impossível saber as verdadeiras motivações de Henry. Não há sequer elementos para iniciar uma discussão, como existe com Capitu e Bentinho. Nada disso é relevante para James, que termina o conto com a dúvida angustiante.

Já o conto de Kipling é mais complexo. Um aspirante a escritor, Charlie Mears, pede ajuda para o narrador, que considera Charlie alguém com ideias medíocres e sem talento, mas para se livrar da insistência do jovem, aceita em emprestar-lhe alguns livros de poesia. Charlie torna-se um ávido fã de poesia, mas isso não melhora em nada a sua capacidade e ele continua tentando escrever poemas ruins, ao mesmo tempo em que ao começa a contar uma história que imaginara para o narrador. O jovem não dá valor nenhum àquela história, mas o narrador fica fascinado e desesperado para que Charlie termine o relato e deixe de lado os poemas. Enfim, mesmo após o narrador avisá-lo que deveria evitar as mulheres, Charlie se apaixona por uma moça e usa alguns versos banais para conquistá-la. Assim, Charlie não mais se lembra ou pensa na história e o conto de Kipling termina.

O conto de Kipling é inspirado pela reencarnação: a história de Charlie e fragmentária e muda de um conto sobre gregos para um sobre vikings que seriam as suas memórias da vida passada. O apelo ao sobrenatural não atrapalha em nada o conto, ao contrário, permite que Kipling possa sugerir a tal “mais bela história” sem precisar contá-la. Também sugere a premissa por detrás desse texto, já que uma história parece transmigrar, ora acontecendo com um viking, ora com um grego, ou seja, uma história, dois autores.

Em ambos os casos, dois escritores, um mais experiente e um jovem se encontram. É o mais experiente que admira o mais jovem e tenta salvar o seu talento ou o produto deste talento, no caso da história. Em ambos, o perigo é uma mulher, invertendo a crença milenar nas musas. James permite que o jovem escritor seja salvo, Kipling não. Mas por outro lado, se a história é uma memória do passado, eventualmente vai ressurgir e talvez nas mãos de um escritor mais competente que Charles, o que sugere um conto mais otimista por parte de Kipling.

Talvez essa possibilidade (já que não importa os motivos de Henry, o personagem é perverso) é o que faz do conto de Kipling um melhor conto. Além disso, o tema é a própria literatura, algo superior ao eterno tema de James, que é a hipocrisia da sociedade.

Mas pouco importa, em ambos os contos a mesma história e mesmo que possamos sentir que exista algo além do texto, alguma vezes, ou talvez várias, apenas a sugestão que um escritor faz, mesmo que seja só no título, será sempre superior às explicações e as formulações morais.

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