Mais uma noite

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Havia quem se preocupasse com a violência ou sexualidade em excesso no conto moldura das Mil e uma noites– que é o conto de Shahryar e Scheherazade. Havia quem visse amor e cura. Havia quem visse uma atitude política. A dificuldade não está em encontrar, mas sim deixar de encontrar algo variado nas Mil e uma noites e essa ideia me faz lembrar uma história sobre um rei que ordenou que fosse construída uma miniatura do reino, perfeita em todos os detalhes.  Esse mapa seria colocado em um salão do palácio e assim ele podia observar e governar todo o reino dali. No mapa, havia a miniatura do palácio e no palácio a sala com a miniatura do mapa, perfeito em todos os detalhes. Inclusive com o palácio…

A literatura já é como o mapa: uma miniatura do mundo e As Mil e uma noites é uma miniatura da literatura e é esse o segredo do infinito que a obra representa. Não são os números de noites, pois esse número é apenas uma formulação poética. Eu digo apenas, mas não há intenção nenhuma em desprezar essa formulação, a literatura é fortuita em diversos momentos de pequenas mágicas e talvez elas sejam a verdadeira riqueza que procuramos quando escolhemos um texto para ler.

Há outra pequena magia, que me interessa e que talvez possa justificar essa minha escolha em ver As Mil e uma noites como uma representação de toda a literatura. Não conhecemos a cor dos olhos de Scheherazade. Nem a dos cabelos, da pele ou se seus lábios são grossos ou finos. Nem por isso, ela é menos tangível, ao contrário. Nem mesmo Richard Burton quebrou a regra e acrescentou-lhe descrições. Ela se torna ainda mais real, não por que cada um de nós é livre para produzir uma imagem mental dela, mas sim por que, as outras personagens da obra são em geral descritas das mais diversas maneiras em meio aos gênios, gigantes, feiticeiras e monstros. Scheherazade se destaca da mesma forma que as fábulas usam da fantasia para entreter, da mesma forma que a literatura escreve sempre nas entrelinhas, nos rodapés e nas margens.

Ela é uma representação da literatura. Como toda arte, a literatura não é o livro ou o texto, que é o mero produto da inspiração artística. Jorge Luís Borges, que tão apropriadamente está inserido em todo este texto, já diferenciava o livro, um mero objeto, do verdadeiro acontecimento estético, que é a leitura. O livro é algo físico, algo como as personagens que Scheherazade descreve. O acontecimento estético, a arte, é o contrário, algo sem forma, sem descrição, mas nem por isso efêmero. É algo que provoca mudanças e é irresistível. Quando ela começa a contar histórias, o fato estético acontece e Shahryar não é capaz de resistir: é completamente dominado pela literatura acontecendo.

Quando Scheherazade se silencia, nada acontece. É como se Shahryar adormecesse, não por ter passado a noite em branco, mas por que temos a impressão que todo o reino adormece. Em um dos finais possíveis para a obra, Scheherazade, após as mil e uma noites, apresenta ao rei os filhos que foram gerados durante aquele período. É improvável pensar que ele tenha estado com ela por três anos sem perceber uma gravidez. Que tenha vivido no castelo sem ouvir falar dos filhos. A não ser que somente as noites acontecessem naquele reino.

Não creio que os autores anônimos das Mil e uma noites pensassem desta forma. Mesmo porque sabemos que a história moldura existiu sem apresentar os contos da narrativa, que foram inseridos posteriormente. Foi uma construção fortuita, uma forma de seleção natural, que preservou o formato que fosse capaz de ser interpretado como eu fiz. Mas que talvez explique o poder desta obra, um símbolo maior da existência e dos efeitos da literatura. Uma literatura potencial, constantemente, ou como já se disse, infinitamente, sendo elevada a um número mágico. Que dizem ser 1001.

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