Quanto mais letras, melhor

O goleiro que não era o número 1

O goleiro que não era o número 1

Quanto eu tinha um seis anos de idade eu sabia ler Tiranossauro, Brontossauro e Tomaszewski.

Quase todo mundo sabe o que é um Tiranossauro e pensa saber o que é um Brontossauro. São dinossauros, ou no caso de Brontossauro, era um dinossauro, já que os paleontólogos disseram que o bicho não existiu e que o que todo mundo acreditava ter existido era na verdade a mistura de dois animais diferentes. Literalmente, corpo de um, crânio de outro. Mas todo menino sabia o nome do bicho, por que era aquele com um jeito simpático e um pouco bovino que era do tamanho de três ônibus alinhados e vivia submergido em pântanos. Os cientistas acabaram com isso também, até colocaram penas no Tiranossauro e acharam outros carnívoros maiores, mas não importa. Era o Tiranossauro que vinha com o sobrenome “Rex” e nenhum bicho tinha um sobrenome mais legal.

Pelo ao menos não nos muitos livros com desenhos de dinossauros e outros tantos animais daquele tempo que aprendi a reconhecer tanto a imagem quanto o nome.

Tomaszewski não era um dinossauro e nem era um desses outros monstros que viviam com os dinossauros. Era um goleiro polonês, que jogou nos anos setenta, famoso no Brasil principalmente pelas atuações na Copa do Mundo de 1974. Meu tio Márcio gostava ser goleiro e me ensinou a gostar de fazer o mesmo. Ele colecionava recortes de jornais de goleiros em ação que colava em um caderno e eu herdei o caderno. Eram goleiros brasileiros, na maioria, mas em uma página havia um goleiro, um pouco cabeludo de camisa verde e shorts vermelhos, saltado em meio ao um grupo de jogadores para encaixar uma bola. Havia certo ar de loucura naquela cena e mal eu sabia que Tomaszewski tinha essa fama de arrojado, por deixar o gol constantemente para disputar a bola. Goleiros dos anos setenta tinha fama de loucos e ele era um dos mais loucos. É claro, talvez parte da estranheza fosse devido ao número na camisa: 2. Se o goleiro é o estranho do time do futebol, um goleiro que jogava com a 2 era o mais estranho de todos.

Era por isso que eu sabia o nome Tomaszewski.

Claro, essas não eram as únicas palavras longas que eu conhecia, havia o tal de Marzurkiewicz e o Estegossauro. Os meus pais, como outros pais, adoravam saber que eu conhecia palavras difíceis. Mas sou de opinião que isso servia mais do que para o prazer paterno e materno.

Você já notou quantas pessoas têm preguiça de ler e escrever? Quantas vezes você postou na internet e alguém não leu só porque o bloco de texto é grande? E as pessoas que escolhem livros por serem finos? Não estou falando de ler contos ao invés de novelas. São duas manifestações narrativas diferentes. Leia muitos contos e pronto. Estou falando da preguiça de pegar um livro de quinhentas páginas. Pensam que é um livro para cabeções metidos a lerem clássicos, provavelmente russo. Até quando leem, o livro tem de ser simples, aquele tipo que as páginas são viradas sem obstáculos, a leitura é veloz e quando termina… Apenas terminou e que bom que pode ser esquecida.

Por isso, se você tiver um filho, que está aprendendo a ler e escrever, e por um motivo ou outro se enamorou com palavras longas, estranhas, difíceis, mesmo que seja Wolverine… Rejubile, é bem possível que tem um futuro amante da leitura em casa.

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