O mundo ainda precisa de Voltaire

Voltaire por Maurice Quentin de La Tour

Voltaire por Maurice Quentin de La Tour

Ele não é uma unanimidade, nem poderia ser. Nos colégios e livros de História, vive em notas de rodapé, chamado de filósofo e racionalista. Em alguns livros de literatura, sua principal obra, Cândido, é lembrada, mas raramente é lembrada como uma obra-prima. Ainda assim, seu nome surge fácil na memória de escritores como Borges, Eça de Queiroz, Machado de Assis ou Anatole France. Ele era François-Marie Arouet, ou melhor, o Voltaire.

Independente do possam pensar, Voltaire foi uma espécie de força da sociedade, uma necessidade vital. Sua inteligência encontrou uma única solução para lidar com o mundo: a ironia. Era um mundo errado demais, se não risse dele, seria mais uma vítima. E aquele jovem franzino e burguês jamais aceitaria ser uma vítima, coisa ilógica, ilógica demais.

Voltaire adorava o teatro, queria manter a glória do período dourado de Racine, Moliere e Corneille. E adorava a corte, os salões, onde seu bom gosto e rapidez de raciocínio produziram uma profusão de versos que mal guardamos na memória. Foi assim que conquistou seus primeiros inimigos e foi parar na Inglaterra. Lá, Voltaire conheceu Newton, Jonathan Swift e Locke. A distância deu-lhe perspectiva e uma nova França abriu-se diante dele. Sua fúria contra a ignorância fez dele um dos mais influentes intelectuais da Europa. Sem se preocupar em explicar tudo que pensava, pois para Voltaire, existia tal coisa como o inexplicável.

Seu maior inimigo foi a Igreja, não a religião. Voltaire era deísta, cria em um Deus universal e ausente, dedicado em manter a ordem do universo. Não era, para ele, um ser preocupado em moldar o homem, colecionar almas e punir. Para isso bastavam os próprios homens. Mas o raciocínio e habilidade humorística de Voltaire fizeram dele um incomodo sem tamanho. O homem era um rei da farsa e da broma. Ria de tudo e de todos e quero crer que riu de si mesmo.

Cada vez que o mundo se acha seguro e resolve fazer tudo errado novamente, é de Voltaire que precisamos. Ele chegaria e apontaria com seus dedos magros e sorriso velado o erro… e não assumiria nada do que falou. Mas o efeito é mais importante do que autoria.

Quando convalescia, Voltaire provocou uma verdadeira corrida de sacerdotes, todos interessados em tomar dele a derradeira confissão, quando assumiria seus erros e pediria perdão. Mas o homem, que chamava o povo de canalha, esquivou-se. Diz uma lenda que os amigos, temendo que a Igreja não autorizasse o seu enterro em um solo sagrado, que naquela época significaria uma vala comum, o vestiram e o colocaram na carruagem para passear pelas ruas de Paris, seguido por uma multidão, crendo que ainda vivia. Levaram-no para uma pequena igreja suburbana guardada um padre amigo, que imediatamente realizou o sepultamento. Quando a notícia de sua morte chegou, já era tarde demais para impedir. Enfim, morreu rindo, e por isso Eça de Queiroz deve tê-lo colocado em animada conversação com Deus no romance A Cidade e as Serras.

E o que faria Voltaire hoje? Talvez acrescentasse um novo capítulo ao Cândido. Nele o personagem principal e algum dos seus companheiros (talvez o otimista Dr.Pangloss, que tanto se assemelha a um certo escritor famoso que tenta provar que a felicidade está à nossa disposição; talvez a bela Cunegundes ou o pessimista Martinho) impediriam um roubo. O bandido cruel teria matado alguns padres, algumas feiras e alguns fiéis e levado consigo um relicário contendo uma relíquia sagrada que jamais era visto. Ao impedir o roubo, Candido derruba o relicário e o ídolo cai no chão. Cândido leva uma espadada do bandido, que aproveita para fugir, ao tentar aparar o ídolo e colocá-lo de volta no relicário. O bispo do local agradece Cândido pelo sacrifício, por impedir que o ídolo fosse roubado, mas ao descobrir que Cândido não só vira o ídolo como tocara nele diria:

– Meu filho, se só houvesse visto o ídolo, seria punido com 100 chibatadas. Mas tocar? Deverá ser cegado, chicoteado, apedrejado na sexta-feira santa e condenado a queimar no inferno.

– Mas e o ladrão – Perguntaria Cândido.

– Ele é um fiel, pois sabe o valor de nossas relíquias sagradas. Eventualmente, virá se confessar e tenho certeza que será obrigado a rezar 40 padre-nossos, 30 Ave-marias e mostrar o seu arrependimento para ser levado ao purgatório para pagar seus pecados como um bom cristão.

Claro, Voltaire deixaria claro que a dita relíquia pertencera a um santo que não era mais considerado santo em Roma, pois o seu suposto martírio foi uma mais do que merecida lição por ter roubado e chantageado uma pobre baronesa, enquanto o marido estava fora, lutando nas Cruzadas. Ou algo assim, pois não sou bom como Voltaire, meu sorriso não é tão natural. Por isso precisamos tanto de Voltaire, que alguém o reinvente!

Galeria Voltaire.

João Camilo de Oliveira Torres

Originalmente publicado aqui

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