O Castelo Animado e as pequenas felicidades da literatura

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O Castelo Animado

Creio que Borges sugeriu certa vez que a literatura é feita de pequenas felicidades. Neste sentido, são pequenas felicidades os primeiros versos dos Lusíadas, a amizade entre Dante e Virgílio, o rouxinol de Keats, os olhos de Capitu e a távola redonda de Artur. É a busca destas felicidades, condensadas em nome do efeito imediato, que move o contista. O romancista faz um caminho diverso, espalhando-as pelos capítulos para que o leitor possa encontrá-las e assim, prolongar a sua leitura.

A literatura infantil e juvenil, esse gênero artificial que é feito de outros gêneros e do acaso de um leitor ideal demais, não estaria isenta destas felicidades. Uma dessas obras cheias de pequenas felicidades é O Castelo Animado de Diana Wynne Jones. É uma pequena felicidade a forma como a magia na obra é apresentada como algo que se confunde com o cotidiano de forma que nem percebemos quando algo mágico está realmente acontecendo ou se os personagens apenas pensam ser algo mágico, mas que na verdade é algo normal. E a maior felicidade é a forma como a poesia é confundida com a magia, e ainda mais, pode ser tornar magia e é introduzida como uma dever de casa que as crianças aprendem na escola. O poema de John Donne, Song, é transformado em romance e se torna a história do mago Howl,

Não vamos confundir essas felicidades com alegria e o humor do livro, ou a forma como apenas sugere o perigo e as trevas, rendendo-se ao que é positivo e otimista, tornando inevitável o final feliz. Curioso pensar que esse poderia ter sido o livro que ajudou a recuperar a magia na literatura infantil, sendo publicado antes dos livros de J.K.Rowling, onde a magia é mundana e os personagens apresentam lados sombrios. São frutos da ideia equívoca de que a profundidade de um personagem depende de apresentarmos dúvidas originadas da dicotomia entre o bem e o mal. Não, a claridade também apresenta diversas tonalidades e muitas vezes, esses lados sombrios não são mais complexos do que as casas negras de um tabuleiro de xadrez. Na sua simplicidade, os personagens de Diana Wynne Joses superam os de Harry Potter.

Se isso não fosse verdade, um poeta metafísico e tão complexo como John Donne não nos convidaria a buscar por estrelas cadentes, com faz no poema que é a parte de o Castelo Animado:

GO and catch a falling star,

Get with child a mandrake root,

Tell me where all past years are,

Or who cleft the devil’s foot,

Teach me to hear mermaids singing,

Or to keep off envy’s stinging,

            And find

            What wind

Serves to advance an honest mind.

 

If thou be’st born to strange sights,

Things invisible to see,

Ride ten thousand days and nights,

Till age snow white hairs on thee,

Thou, when thou return’st, wilt tell me,

All strange wonders that befell thee,

            And swear,

            No where

Lives a woman true and fair.

 

If thou find’st one, let me know,

Such a pilgrimage were sweet;

Yet do not, I would not go,

Though at next door we might meet,

Though she were true, when you met her,

And last, till you write your letter,

            Yet she

            Will be

False, ere I come, to two, or three.

 

João Camilo de Oliveira Torres

(Texto original aqui)

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